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Ano 6 - Número 33 Outubro / Novembro de 2008 AGORA BASTA

Já tiramos todas as cartas da manga, agora
basta!

De Collor a Crivella Foi na época da eleição do Collor de Mello. Fazíamos a nossa parte, o trabalho de formiguinha, contra a candidatura do moço. Nossa possibilidade de comunicação era mínima, mas criativa: fazíamos textos que eram colocados nos mais diferentes quadros de avisos, banheiros, caixas de correio, dentro de correspondências outras, encartadas dentro de jornais de donos de banca amigos... práticas que vinham desde a época dos anos de chumbo. Nos bares de calçada, zona norte, centro e zona sul, vendíamos poesias, desenhávamos os freqüentadores de "dávamos de bonus" nossos textos, éramos espertinhos. Em verdade, com a abertura política as portas e pátios de Universidades passaram a ser, também, nossas passarelas. Destes textos escrevi um que foi sucesso, e Mariazinha colloriu, principalmente na PUC distribuído pela, então estudante de Direito, Thaïs Brüggeman Grife. " e Mariazinha colloriu... Mariazinha nasceu na Saúde, mas desde a escola pública ela sabia, se sentia, bem acima das suas coleguinhas. Sabia que havia nela qualquer coisa de classuda. Acabado o ginásio, foi Mariazinha trabalhar de atendente num banco do bairro. Pintadíssima, arrumadíssima, lidando com correntistas tão ricos ela sabia que iria encantar algum e já se via num condomínio da Barra: madame. O tempo passou e Mariazinha teve que baixar a bola: casou-se com o gerente do banco: meio-coroa, divorciado mas sem filhos e ganhando bem. Compraram e foram morar num apartamento da praça Saens Peña, bem em cima da Sloper. A primeira vez que foi apresentada como "a proprietária" do 315, Mariazinha teve seu primeiro orgasmo verdadeiro. No cabeleireiro, quando a ajudante gritou, agora é sua vez Madame Silva, Mariazinha gozou horrores. Mas algo incomodava a novel Madame Proprietária: o Silva ir toda sexta para a reunião do partido, eram vésperas de eleições. Numa destas noites solitárias, D. Maria Silva, debruçou-se em sua varandinha sobre o vazio da praça Saens Peña. Olhando o céu percebeu que uma estrela tremeluzia, que crescia e se aproximava de sua varandinha. Atônita viu descer do astro uma fada .Tremula de corpo e de voz, num quase vagido, perguntou : "A senhora é minha fada madrinha?" A resposta foi afirmativa mas nossa heroína jurava que já tinha visto aquela fantasia na vitrine da Casa Turuna. – Dona fada madrinha posso fazer três pedidos? – Três não, só um, fada madrinha de pobre tem que ser econômica. A afilhada fingiu não ouvir a palavra que mais detestava: pobre. – Então quero me sentir elite para sempre! – Olha o exagero, posso lhe dar a sensação por 2 minutos. Dois minutos era muito pouco, mas melhor que nada. Madame lembrou de perguntar quando e onde se realizaria o pedido, mas a fada-madrinha já de fora sem um tê logo, ou um fui. Passam-se dias e o Silva alerta: Mariazinha você tem que votar na Saúde. Foi um drama, Madame Silva havia prometido, a ela mesma, jamais voltar ao bairro, mas esquecera de transferir o título e, afinal, ela continuava a trabalhar no mesmo banco, agora na Saens Peña. Chegado o dia do pleito, Maria empiriquitou-se toda como se fosse encontrar um amante em motel da Barra. Na cabine Mariazinha olhou a célula mas não sabia em quem votar, achava essas coisas de política muito cafonas. Lembrou-se, então, de promessa da fada madrinha e portou-se como a bem mais nascida tijucana, seu sonho de escalada social, e... fez a cruzinha no nome do Collor. É, Mariazinha colloriu e por dois minutos se sentiu elite. Infelizmente muitas Mariazinhas, de todos os sexos, colloriram e deu no que deu. Agora, "mutatis mutantis", temos um fenômeno similar. Quantas Mariazinhas irão crivellar acreditando-se irmãs das madamas, sobretudo daquelas não lhe freqüentam a mesma igreja? Gilson Nazareth
Mestre em Educação IESAE-FGV
Doutor em Comunicação e Cultura ECO-UFRJ
deventer@uol.com.br

A arca procura por Noé Há oito anos comemoramos 500 anos de existência cheios de entusiasmo, assim como um adolescente que completa maioridade e acredita que a partir deste momento tornou-se independente e apto a dar rumo à sua vida, por sua própria conta. Chegamos a imaginar que em 2002 e 2006, finalmente votamos certo. Acreditamos que nem as urnas eletrônicas manipuláveis conseguiram reverter o rumo que nosso país deveria trilhar a partir de agora. Menosprezamos Regina Duarte pela sua mensagem pessimista contra o novo governo, dito da esperança. Parece que foi da esperteza. E depois de 8 anos começamos a perceber que o processo de empobrecimento (financeiro e moral) do povo segue firme a favor do enriquecimento das contas bancárias dos abutres que por séculos nos envolvem com seus tentáculos sangrentos. A tristeza pela decepção é maior por vermos que o comandante máximo da nação sucumbiu aos encantos da posição que galgou sem mesmo ter feito um estágio como Governador, Ministro ou Senador. Não pedimos que ele tentasse resolver com um passe de mágica, problemas de 100 anos em 6 meses. Nem em 4 anos. Mas pelo menos que olhasse na direção da solução. Que reduzisse a falta de esperança em pelo menos 20%! Infelizmente, depois da euforia da festa, percebemos os destroços de nossa dignidade aumentando com rapidez. Nosso piloto navega (num caro avião) sem bússola pelo universo da miséria usando os atalhos dourados dos gabinetes. Ficou deslumbrado com os serviços a bordo nas constantes viagens realizadas e finge não perceber que cada “acordo” com presidentes estrangeiros cedemos mais um pedaço da nossa dignidade esgarçada pelas botas dos vorazes abutres. Abandonou a arca nas mãos dos que permitiram que ele chegasse ao topo de seu sonho em detrimento do futuro de seus compatriotas desiludidos. Boiando a esmo no charco da podridão moral, rezamos para abalroar a embarcação onde esteja Noé, para que este tente nos salvar, pobre gado rumo ao matadouro. Nossa sociedade é um colosso! Já passamos do fundo do poço! Referendo de sucesso será o que permitir expurgo no Congresso! Haroldo P. Barboza Autor do livro: Brinque e cresça feliz
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