João do Rio - Revista Internética
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A voz anônima das ruas



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Uma visão privilegiada do espetáculo

 

Aplausos aos artistas nacionais
da Belle Époque

 


Theatro Recreio Dramático

Abrem-se as cortinas, a temporada dos espetáculos está aberta! Preparem as toiletts e garantam o seu bilhete. As torrinhas se abarrotam de gente para bater a claque e jogar flores às estrelas. Os cambistas, afoitos, entoam um canto apregoado para lhes venderem os últimos lugares! Comprem seus resumos de peça, cheguem mais perto! Aproveitem! Eis o Rio de Janeiro descortinando-se em espetáculos musicais, cômicos. Em coplas e luxo, a diversão é garantida por nossos autores e artistas, por nomes do elenco nacional e internacional. Bem-vindos!

Ah, as operetas... e não eram uma fantasia cênico-musical? A influência das companhias estrangeiras que vinham apresentar operetas na sociedade carioca da Belle Époque era evidente: mademoiselles preocupadas com seus toillets, maisons na Rua do Ouvidor, hábitos e modelos musicais franceses.

Enquanto o compositor Jacques Offenbach afirmava-se no ramo da opereta em Paris, em 1855, nossa capital cogitava a introdução de uma companhia francesa de operetas. Disseminava-se então, o ciclo de estrangeirismos que, apenas com o passar dos anos, teve como grande concorrente o ciclo de produção nacional.

E não diziam os críticos que o teatro estrangeiro movimentava o cenário carioca? Operetas, Vaudevilles... Revue d’Annè. Também de raiz francesa, a Revista de Fim-de- Ano sofreu preconceitos quando mostrou que podia ter elementos e estrutura nacional. Havia um investimento mais eficaz advindo do empresariado em espetáculos franceses, portugueses, italianos, enquanto que as companhias e autores nacionais batalhavam por sua colocação no mercado artístico brasileiro. Dizia-se ser “exigência” do público, alegando que o estrangeirismo era fomentado pela vontade desse mesmo público. O escritor Múcio da Paixão, na obra “O theatro no Brasil”, aponta-nos um discurso diferenciado:

“(...) O público affluiu ao theatro e applaudiu os trabalhos dos nossos autores, contrariando desse modo a opinião extremadamente pessimista dos que affirmavam e affirmavam que ninguém sae de casa para assistir uma peça nacional.” (SIC) (PAIXÃO,p.249.)

Várias companhias estrangeiras instalaram-se em teatros brasileiros, como a de Souza Bastos, vinda de Portugal, trazendo como ícone a estrela Pepa Ruiz. A companhia teve no decorrer de sua carreira, contribuições de artistas nacionais como a da maestrina e compositora Chiquinha Gonzaga. A musicista estreou como a primeira figura feminina a compôr para teatro no Brasil, em 1885 com a opereta de costumes “A Côrte na roça”, rompendo os grilhões do preconceito da sociedade da época com a mulher que trabalhava no meio artístico.

Paralelamente às operetas, temos as Revistas de Ano. Na década de 80 do século XIX, vemos alguns teatros como o Recreio Dramático afirmarem-se como espaços para autores nacionais. A maioria de nossos autores pertencia ao hall literato e jornalístico da época, da elite cultural carioca. Segundo o cronista Luiz Edmundo, o Recreio Dramático era o lugar preferido pelo “alto-madamismo”. Teatro com estrutura simples e um jardim empedrado que servia como pólo social, onde os homens observavam as toillets das artistas e madames. Nas redondezas, o cenário era de uma vida noturna animada: charutarias, lojas, bares, cafés, restaurantes, casas de diversões... tudo aberto a pleno vapor, funcionando paralelamente e após as sessões de teatro. Um sistema social para a população se entreter.

Muitos atribuem à Revista de Ano a decadência do teatro brasileiro da época e, assim, aos seus sucessivos movimentos no avanço da história do teatro musicado. A crítica argumentava a utilização de apelos textuais sem qualidade, de obscenidade, pontuando a inserção do maxixe, dança genuinamente nacional, e suas intenções “maliciosas”. Os literatos contemporâneos de Arthur Azevedo, o mais popular revistógrafo da Belle Époque, desconsideravam o gênero justamente por ser popular. E a história se repetiu, quando no século XX, surgiu a Revista Carnavalesca. Os produtores de Revista de Ano estranharam tal novidade, diversa da primeira estrutura do gênero ligeiro, sendo a Revista Carnavalesca ainda mais enfocada no espetáculo. De fato, há de se concordar com Múcio da Paixão, “em rigor não ha peças más nem boas: ha peças bem feitas e peças mal feitas. (...)” (SIC). Há uma relatividade no que concerne à qualidade das produções artísticas. Não podemos generalizar afirmando que tal gênero ou reformulação deste viria a anular os movimentos anteriores ou invalidar a seriedade empregada no objeto artístico. Aconteceu, pois, um processo de renovação da estrutura artística, implicando em boas ou más produções. Por que há de ser o teatro um espaço para a reflexão filosófica constante? Não poderá ser para a diversão, compreendendo qualidade?

Os movimentos do Teatro Sério e do Teatro Moderno, posteriores, também criticaram o gênero ligeiro por ser este puro entretenimento popular. E nesse “entretenimento” há reflexão, há crítica; uma reflexão social que acompanha as transformações da urbe. Mas a sociedade e a cidade não estão em constante mutação? Assim também o movimento cultural, que busca trazer pluralidades estéticas ao panorama artístico, acompanhar a modernização, sendo apenas uma questão de respeito e entendimento de contextos e não de disputas egocêntricas.

Muitos autores nacionais ao inserir seu trabalho no mercado sofreram a sentença da crítica e do público, como o cronista, teatrólogo e crítico teatral João do Rio, que ao estrear a revista “Chic Chic”, em 1906 no Palace-Théatre, tentou romper com o padrão antigo de revista e foi mal compreendido. Ainda sobre a postura do público do Teatro Ligeiro, que, segundo Mencarelli, em sua maioria era formada pelas camadas médias da população, e, segundo João do Rio, havia a proliferação de espectadores femininos, é válido citar sua reflexão acerca do assunto:

“O público compara, o público é cruel, o público vai ao estrangeiro. Os autores nacionais de valor, vendo-se na dura contingência de não poder lutar contra a corrente, correm aos transatlânticos. Raros são os que ainda resistem heroicamente. As companhias estrangeiras, que eram raras, começaram a vir aos magotes, passaram a demorar mais tempo, quase todo o ano.”

(João do Rio in – HAAG)

O espetáculo de comédia ligeira de costumes, o Teatro de Revista, com seus quadros quase independentes e o compére - mestre de cerimônias; música e dança fartos através das micro-cenas de seus atos, mesmo sendo um movimento popular sofreu a exigência do padrão internacional. O público, inquieto, buscava um parâmetro que não o de sua cultura. Antes mesmo do Teatro de Revista se configurar, João Caetano já sofria para inserir espetáculos nacionais, tendo que ceder aos estrangeiros. João do Rio resume bem o sentimento artístico da época:

“O brasileiro não compreende que sua primeira qualidade deve ser a de amar as duas coisas. Isso acontece com os produtos da inteligência, com tudo. Somos um pobre país. E o havemos de ser indefinidamente enquanto julgarmos inferior o que é nosso.”

(João do Rio in – HAAG)

Registro aqui minha indagação, em relação à postura do público houve mudança efetiva neste panorama?

Bibliografia:

BOSCOLI, Geysa. A pioneira Chiquinha Gonzaga. Natal, Governo do estado do Rio Grande do Norte, [s/d].

EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro de meu tempo. Brasília: Edições do Senado Federal volume:1. Conselho Editorial Edições Eletrônicas, 2003.

HAAG, Carlos. A alma encantadora dos palcos – tese revisita a militância teatral de João do Rio e suas “reportagens-de-coxia”. Revista de Pesquisa da FAPESP. http://revistapesuisa.fapesp.br

MENCARELLI, Fernando Antonio. Cena aberta: a absolvição de um bilontra e o teatro de revista de Arthur Azevedo. Campinas, SP: Editora da UNICAMP/ Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, 1999.

PAIXÃO, Múcio. O theatro no Brasil. Obra póstuma. RJ: Brasília Editora, 1936.

RABETTI, Beti. As comédias ligeiras e a tradição da comédia de costumes no Braisl: velhos temas para novas melodias. Núcleo de Teatro Cômico da UNIRIO. http://www.unirio.br/teatrocomico/textos/comedias_ligeiras.doc

RIO, João do. Vida Vertiginosa. Edição preparada por João Carlos Rodrigues. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

RODRIGUES, João Carlos. João do Rio: uma biografia. RJ: Topbooks, 1996.

 

Ana Estachiote Mantuano
Musicista, educadora e pesquisadora musical, licenciada pela Universidade Federal de Ouro Preto. UFOP-MG
ana_flauta@yahoo.com.br

 

 

 

 

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