Revista Internética
João do Rio

joaodorio@uol.com.br

"A voz anônima das ruas"

Ano 12 - Edição número 63
Junho / Julho de 2014

Diretores:
Gilson Nazareth
Márcio Salgado


Programação Visual:
Massanobu Endo


Equipe:
Benedita Azevedo
Joana D'arc

 

Colaboradores e
Articulistas
:


Cid Martinho
Diorindo Lopes
Domi Chirongo
Eraldo Motta
Eusébio Sanjane
Geraldo Lino
Kiko Nazareth
Lígia Saavedra
Luiz Antonio de Almeida
Rita Maria Felix da Silva
Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Sérgio Fonta

 

 

Início seta Crônica Carioca seta Crônicas - Número 60

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CRÔNICA CARIOCA


Decadência

Gilson Nazareth

ImageA cidade é hoje subsidiada pelo governo federal, já não tem como arcar com os serviços básicos.

De cerca de 5.000 habitantes tem, agora, segundo o último censo, 1.387 almas.

Cerca de 1/3 das casas estão desabitadas e as outras, em sua maioria,ocupadas por um só morador.

A única farmacia fechou, na semana passada, a compra de remédios somente na cidade mais próxima: a 85 km e acassível por estrada federal em péssimo estado.

O ginásio fechou mas ainda subsistem as escolas primarias municipais.

Os nascimentos são em número menor que a soma de mortos e migrantes.

O principal sobrada, da praça da matriz,continua nas mãos da família que o construiu:uma velhinha senil e solitária.

A mesma praça matriz apresenta-se muito bem cuidada pelos habitantes das poucas casas, ainda habitadas, que rodeiam o logradouro.

Hoje o rio que corta a cidade recusou-se a continuar correndo, o sino da igreja do Santíssimo lançou seu badala torre abaixo: não quer mais tocar.

Os pombos migraram a Florida e D. Amélia de Castro e Vasconcelos,linda e recatada jovem, da nossa melhor sociedade, transferiu-se para o "rende-vous"! da urbe mais próxima.

Zé Filosofo, o mais ético e probo vereador local, cacaba de abandonar seu antigo partido e filiou-se ao PT.




A beleza da paisagem

João do Rio

ImageO gerente do hotel, um veneziano que me parece ter herdado os gestos gentis dos antigos pajens dos doges, o gerente tentava o meu estômago.

– Não me deixe de ir ao pic-nic. Que beleza! Vai toda a gente do hotel. Depois, há umas perdizes, um peixe...
Ora eu não sou precisamente como Diniz da Cruz:

Da arte da cozinha tão somente
(Que é obra quanto a mim mais proveitosa
Dos homens que o francês que anda na moda)
[Charge Kalixto, 1904]         Alguns pedaços leio estando vago.

Mas não lendo e não entendendo – aprecio. É até hoje o melhor meio de apreciar sem restrições. E aquela lembrança das perdizes e do peixe levou-me a trepar para uma ranha mais dura que a mais dura rocha e a rolar, entre outras aranhas, até o lugar onde tinha sido ajustado, em divertido ágape, devorar os produtos da venatória mineira e da pesca santense. Quando saltei da carriola torturante, reparei que o sítio tinha uma árvore anêmica, uma grande mesa com um toldo de folhas verdades que o sol já ressequia, e ao longe, a caixa d’água. Junto ao gerente um cidadão de sobrecasaca e de relógio em punho indagava a que horas seria o almoço: em derredor saltavam senhoras de outras conduções quase flageladoras num ruflo de vestidos alegres.

Percebi que o piso era desagradável e que sujaria os sapatos se não andasse com cuidado após esta sumária percepção do ambiente. Quando cheguei, porém, ao grupo das damas, uma senhora dizia:

– Que paisagens lindas! É um encanto a roça... Juro nunca ter céus tão bonitos. Mereciam uma descrição poética.

Imediatamente tomei uma atitude conveniente e inspirada. Quem, senão eu, estava talhado para deixar em períodos imperecíveis mais uma descrição poética do céu, das árvores e da roça? Eu  era ali a arte, que é, como todos sabem, um canto da natureza visto através de um temperamento. O canto era a caixa d’água, eu o temperamento. A soma e a fusão do temperamento e da caixa d’água dariam como resultado a beleza.
Mas como estivesse na realidade pouco convencido, reparei nas conversas. As senhoras, depois de ficarem dous minutos a exclamar que beleza! com os olhos em alvo tal qual os indiferentes, que a praxe curva diante de um cadáver, murmurando, coitado! – as senhoras já discutiam modas. Os cavalheiros conversavam políticas, o ministério Afonso Pena, o que dará João Pinheiro na presidência de Minas, o efeito das águas sulfurosas, o tremendo crime da rua da Carioca, a nevrose da vida intensa, que, mesmo fora da cidade, os civilizados recebem diariamente nas escachoantes informações dos jornais do Rio. Nenhum desses senhores olhava a riqueza azul do céu, nenhum deles parecia sentir o ar fino ensopado de aromas. Em compensação, cada cérebro era um repositório de histórias da vida alheia. Conforme o grau social, podia-se catalogar naque4le passeio campestre uma série de biografias de homens urbanos. Os políticos sabiam histórias de desafetos de luta, já não digo desde os bancos acadêmicos, mas desde o berço com as respectivas heranças: os comerciantes, se lhes perguntavam por um colega, diziam até a história da casa e da firma; e certo cavalheiro mesmo que um instante se comoveu comigo a respeito do crime da cura da Carioca, conhecia, não sei por que processo, uma porção de biografias de gatunos.

– Esse Estácio, eu o conheço. Ah! O Pegato, ladrão ousado! O avô do Roca...

Era incrível.

Fomos, afinal, para a mesa. E havia fome, e o vento norte, o vento saudável soprava. Mas com inconveniência, porque as folhas secas do toldo caíam entre os pratos e às vezes dentro dos pratos. O semblante dos convivas fechava-se. Ora que vento, hem! Só naquele momento! E também a invenção do toldo de folhas! De resto fazia um sol feroz, um sol de campina que tosta epiderme... e assim contrariados, entramos na mayonnaise e no chablis.

 Eu, entretanto, adquiria uma noção preciosa – o amor da natureza fugira para sempre dos nossos corações. Não era só eu que ali não sentia o encanto da paisagem. Todos os outros nem ao menos lhe viam os aspectos belos. Para os homens e as senhoras da cidade a partie de campagne era feita por uma obrigação da sociabilidade, e a sociabilidade, fora da urbs dispensa o cenário, contenta-se com os dramas do tempo de Corneille, com um banco e um pano ao fundo.

Cada um de nós conversava do seu meio, mostrava as opreocupações do asfalto e da poeira, conservava a fisionomia composta com esforço na cidade e com maior esforço lá sustentada. A natureza era como um parente remoto e venerável de que se guarda o retrato a óleo e de corpo inteiro no quarto dos cacaréus. 
A mudança nô-la fizera de novo presente e, tal qual diante do retrato, o pensamento muito longe, os convivas diziam distraídos: que bonito! para logo notar a desvantagem do trambolho.

De que nos serviria com efeito forçar a alma a esse retrocesso incivil? O cérebro que adquiriu a noção do confortável e subordinou a beleza ao seu at home, que tem palmeiras na sala de visitas e o mobiliário obedecendo aos mais delicados motivos da paisagem, precisa vir ao campo, apanhar carrapatos, comer mayonnaise com folhas secas para sentir emoções? Certamente não. Para um sujeito como eu, o passeio público fornece uma dose suficiente de oxigênio e de vida vegetativa. Aos meus pares a mesma ousa devida acontecer.

Os mais afoitos, os mais bárbaros chegariam até ao Leme nas noites de verão e de bond elétrico. O animal urbano é essencialmente urbano, é o desdobramento da espécie. Vive na cidade, compreende a cidade, e o resto, como dizia Verlaine:

Et le reste est litterature.

Talvez por isso, para gozar o ar livre do almoço, eu recordava os versos dos poetas antigos, os carmes de Horácio, a inevitável écloga de Virgílio Sub tegmini fagi, inevitável desde que se chega à roça e se faz o conhecimento de uma árvore. E já estava querendo lembrar a fons bandasial para aplica-la à represa, quando anunciaram o fotógrafo.

O fotógrafo! Há remate mais banal nos banquetes de qualquer espécie? O fotógrafo é o último prato do cardápio das confeitarias que se prezam. Fica entre os aspargos sauce mousseline e o brinde fatal. O seu aparecimento solene de prato moral, consolador das vaidades, afugentou mesmo a literatura. Todos nós tomamos pose, desejosos de sair bem e suficientemente à vista.

A beleza da paisagem era o fundo vago da fotografia...

Depois deu-se a debandada. As senhoras meio afogueadas pelo calor queixavam-se do vento cálido; os cavalheiros consultavam relógios, caminhando para o flagício das conduções. Eu trepei para a aranha e ao meu lado sentou-se o cidadão de sobrecasaca que percebera ao saltar. A aranha rodou aos solavancos, levantou uma nuvem de poeria.

No alto, o sol entornava cataratas de fogo líquido. Todo o horizonte era uma formidável apoteose de azul, tão intenso que o verde dos montes desmaiava e empalidecia. O cidadão limpou, cheio de gravidade, o suor que lhe caraminhava a fronte solene.

– Qual não posso tomar vinho... esta dispepsia. E entretanto gosto, gosto mesmo muito. Um bougogne, um  porto... Depois, o almoço assim convida. É um prazer beber bom vinho, o falerno olente, sob as árvores...

– Sob as árvores?

– Então, como hoje, à sombra das árvores...

O cidadão nem olhara o local, nem vira que de árvores só existia um exemplar triste e anêmico! Mas não havia tempo para reflexões. Num supremo solavanco quase despedaçador, a aranha parava. O cidadão saltou, coberto de poeira, e limpando a terra da sobrecasaca, exclamou:

– Que beleza de paisagem!

E eu não soube se devia rir ou aprová-lo porque, prestando-se a frase ao trocadilho, tanto podia referir-se ao local que não vira, como ao lamentável estado de sua solene fatiota.

Poços de Caldas, out/1906


Texto extraído do livro João do Rio: Um escritor entre duas cidades. Exposição Iconográfica.  Editado pelo Instituto Moreira Salles especialmente para a inauguração da Casa de Cultura de Poços de Caldas, em 1992, o volume traz estudos críticos, além de crônicas do autor que tratam da sua passagem pela cidade mineira.




O nascimento da crônica

Machado de Assis

ImageHá um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e La glace est rompue; está começada a crônica.

Mas, leitor amigo, esse meio é mais velho ainda do que as crônicas, que apenas datam de Esdras. Antes de Esdras, antes de Moisés, antes de Abraão, Isaque e Jacó, antes mesmo de Noé, houve calor e crônicas. No paraíso é provável, é certo que o calor era mediano, e não é prova do contrário o fato de Adão andar nu. Adão andava nu por duas razões, uma capital e outra provincial. A primeira é que não havia alfaiates, não havia sequer casimiras; a segunda é que, ainda havendo-os, Adão andava baldo ao naipe. Digo que esta razão é provincial, porque as nossas províncias estão nas circunstâncias do primeiro homem.

Quando a fatal curiosidade de Eva fez-lhes perder o paraíso, cessou, com essa degradação, a vantagem de uma temperatura igual e agradável. Nasceu o calor e o inverno; vieram as neves, os tufões, as secas, todo o cortejo de males, distribuídos pelos doze meses do ano.

Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma dia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa mais ensopando que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica.

Que eu, sabedor ou conjeturador de tão alta prosápia, queira repetir o meio de que lançaram mãos as duas avós do cronista, é realmente cometer uma trivialidade; e contUdo, leitor, seria difícil falar desta quinzena sem dar à canícula o lugar de honra que lhe compete. Seria; mas eu dispensarei esse meio quase tão velho como o mundo, para somente dizer que a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra.

Não afirmo sem prova.

Fui há dias a um cemitério, a um enterro, logo de manhã, num dia ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações. Em volta de mim ouvia o estribilho geral: que calor! Que sol! É de rachar passarinho! É de fazer um homem doido!

Íamos em carros! Apeamo-nos à porta do cemitério e caminhamos um longo pedaço. O sol das onze horas batia de chapa em todos nós; mas sem tirarmos os chapéus, abríamos os de sol e seguíamos a suar até o lugar onde devia verificar-se o enterramento. Naquele lugar esbarramos com seis ou oito homens ocupados em abrir covas: estavam de cabeça descoberta, a erguer e fazer cair a enxada. Nós enterramos o morto, voltamos nos carros, c dar às nossas casas ou repartições. E eles? Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres-diabos, durante todas as horas quentes do dia?

O texto acima foi publicado no livro "Crônicas Escolhidas”, Editora Ática – São Paulo, 1994, pág. 13, e extraído do livro "As Cem Melhores Crônicas Brasileiras", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2007, pág. 27, organização e introdução de Joaquim Ferreira dos Santos.




História do Rio de Janeiro

Sérgio Porto


   [Ilust: Thomas Ender]
ImageA coisa começou no século XVI, pouco depois que Pedro Álvares Cabral, rapaz que estava fugindo da calmaria, encontrou a confusão, isto é, encontrou o Brasil. Até aí não havia Rio de Janeiro.

Depois, em 1512 – segundo o testemunho ocular de Brício de Abreu -, rapazes lusitanos que estavam esquiando fora da barra descobriram uma baía muito bonita e, distraídos que estavam, não perceberam que era baía. Pensaram que era um rio e, como fosse janeiro, apelidaram a baía de Rio de Janeiro. Eis, portanto, que o Rio já começou errado.

Passaram-se os anos, os portugueses não deram muita bola pra descoberta, e vieram uns franceses intrusos e se alojaram na baía. Foi então que os portugueses abriram os olhos e, ao mesmo tempo, abriram fogo contra o invasor, chefiados por um destemido cavalheiro que atendia pelo nome de Estácio de Sá (onde mais tarde se fundaria a primeira escola de samba, mas isso foi depois). Estácio era sobrinho de Mem de Sá , ex-governador geral, e primo de Salvador de Sá, que mais tarde viria a governar a cidade. É interessante notar que, muito tempo depois, quem descer pela Rua Mem de Sá vai dar na Rua Salvador de Sá que, por sua vez, passa pelo Largo do Estácio, também de Sá.

Quando os comandados de Estácio de Sá iniciaram a batalha contra os franceses, a coisa foi dura e só se resolveu numa derradeira batalha travada na Praia de Uruçumirim. Para vencer tiveram que sua a camisa e é por isso que, mais tarde, a Praia Uruçumirim ficou sendo a Praia do Flamengo, o célebre Flamengo, que, por tradição, sua a camisa até hoje. Isso aconteceu aí pelo ano de 1567 e estava fundada a cidade do Rio de Janeiro, a mesma que viria a ser, em 1763, capital do vice-reinado, e depois capital da República dos Estados Unidos do Brasil.
A cidade foi construída sobre alagadiços e a brava gente que a construiu secou tão bem os alagadiços que até hoje está faltando água. Quando, em 1763, foi considerada capital do vice-reinado, a cidade tinha somente 30 mil habitantes natos e mais, naturalmente, o Brício de Abreu que não nasceu aqui, mas em Paris, de onde veio ainda pequenino no vapor Provence.

Daí por diante o Rio de Janeiro foi crescendo e... pimba! Estourou. E como tudo que estoura, abriu buraco pra todo lado.

Tal é, em resumo, a História do Rio de Janeiro, que foi descoberto por portugueses navegadores e que portugueses do comércio atacadista da Rua Acre querem levar para Portugal. Daí o velho ditado de Tia Zulmira: “Cabral descobriu o Brasil e Manuel quer carregar.”

Não é, como o leitor mais arguto pouquinha coisa pôde perceber, uma História tão brilhante assim, como pretendem as letras dos sambas apoteóticos.

(Tia Zulmira e Eu)


In: Contos e crônicas. 1ª vol. Org. Leodegário de Azevedo Filho, Layla da Silveira Thomaz, Maria Augusta do Coutto Bouças. Editora Gernasa, s/d.


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