João do Rio - Revista Internética

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A voz anônima das ruas

Ano 8 - Edição número 44
Agosto / Setembro de 2010


Diretores: Gilson Nazareth
              Márcio Salgado


Programação Visual: Massanobu Endo

Equipe: Benedita Azevedo
           Joana D'arc






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Colaboradores:
Diorindo Lopes
Domi Chirongo
Geraldo Lino
Luiz Antonio de Almeida
Rita Maria Felix da Silva
Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Toni Marins

 

 

Início seta Contando um Conto seta Contos - Número 41

 

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Ano 7 - Número 41
Fevereiro / Março de 2010

CONTOS

Glenn Miller e a dama do cabaré

ImageAs constantes crises do diabetes deixavam Raquel deprimida.  Lamentava-se com a irmã, Lia, o amor perdido na juventude. Em sua avaliação achava que seu casamento não valera a pena. Tivera cinco filhos e gostava muito deles, mas o marido não a fazia feliz. Segundo ela, sempre fora traída e precisava trabalhar muito, pois o dinheiro dele era gasto com as outras mulheres. Ela se via como a própria mulher do cabaré, daquela música do Chico Buarque.

Nas ocasiões em que a crise batia forte, ia visitar a irmã que a ouvia com carinho e paciência, pois sabia de suas queixas, e até achava exageradas, porém, mesmo assim, procurava confortá-la. Algumas vezes lhe dizia que ela poderia estar sendo injusta com o marido, entretanto, Raquel insistia que seu casamento fora um erro, que se a prima, no passado, não se tivesse atravessado em seu caminho, com certeza teria sido muito feliz com Jorge, seu amor da juventude.  O pior é que o casamento dele também não dera certo. Casara-se com uma moça muito jovem, de treze anos de idade, tiveram três filhos e se separaram. Ele acabou tornando-se alcoólatra, fizera o tratamento no AAA e agora participava do programa ajudando a recuperar outras pessoas. 

Raquel à época tinha vinte anos. Estava preparando o enxoval e o noivo, Jorge, parecia apaixonado. Gostavam de bailes e a música preferida deles era a de Claudinha Teles “Estúpido Cupido”.  Na hora do refrão, “oh, oh Cupido, vá longe de mim!”, eles faziam que não com o dedo um para o outro. Raquel quase se desmanchava com tanta alegria!  De uma hora para outra ela começou a perceber as brincadeiras da prima com seu noivo.  Pensou em falar com a tia, mas se achou meio ridícula de pensar tal bobagem. Afinal a outra era apenas uma menina de doze anos. Concluiu que, na verdade, estava era enciumada com as atenções do noivo com a prima, uma criança... Acabou abandonando a idéia e continuou sua rotina.  Mas deixou de frequentar a casa da tia, passou meses sem aparecer.

As coisas pareciam normais, até que um dia o noivo chegou e disse que precisavam conversar, marcando um encontro.  Ela imaginou que seria algo em relação ao casamento. Quem sabe resolvera fixar a data? Foram ao cinema e depois ao restaurante. Ao final do jantar, ele começou elogiando-a, que ela era uma moça muito prendada, muito companheira e que qualquer homem seria um sortudo de encontrar alguém com tantas qualidades. Mas que, infelizmente, ele não era digno de uma pessoa tão especial. Precisava se afastar para colocar a cabeça no lugar, pois estava muito confuso.

Raquel levou um susto e ficou sem saber o que pensar. Perguntou se tinha feito alguma coisa que o aborrecesse. Ele disse que não. Que ela era a pessoa mais encantadora que conhecera, ele que não a merecia. Jorge a deixou em casa e se despediu com um beijo no rosto. Dois meses depois soube que se casara com a prima dela, às pressas, pois a “criança” estava grávida. O Cupido se fora mesmo, conforme ela cantava nos bailes!  Parecia maldição.

A essa altura da narrativa, Raquel se emocionou e perguntou à Lia se não se lembrava de Jorge, disse que ele era alto, corpo esbelto, cabelos cortados rente, olhos azuis pele muito branca, ressaltada pelo verde-oliva da farda do exercito.  “Parecia o Marlon Brando”, exagerava a apaixonada. A irmã disse que lembrava, vagamente, já que mantivera pouco contato com ele. Pois ela estudava em outra cidade.

Segundo Raquel, após ele se separar da mulher, Jorge viajou três mil quilômetros atrás dela.  No entanto, ela já estava casada e com cinco filhos. O ex-noivo dissera-lhe que se arrependia de não lhe ter dado mais atenção e  nem ter permitido que ela argumentasse e tentasse convencê-lo. A irmã quis saber se já fazia muito tempo que Jorge a procurara.  Raquel respondeu que ainda estava jovem e bonita, mas tinha de cuidar dos filhos, pois o marido saíra de casa e fora morar com outra mulher, e ela não queria se envolver com ninguém, principalmente com alguém que já a tinha abandonado uma vez. Disse ainda, que havia duas semanas recebera um telefonema dele querendo um encontro, pois agora morava no Rio, relativamente perto dela.

Aquela amargura na voz de Raquel comoveu a irmã. Lia a abraçou e convidou-a a tomar um chá. Foram até a cozinha e sentaram-se à mesa enquanto esperavam a água esquentar. Ela continuou a lamentação. Disse à irmã que no tempo em que esteve separada do marido apareceram vários pretendentes, inclusive um médico, mas naquele momento os filhos eram seu único objetivo. Depois, o marido resolvera voltar para casa. Ela aceitara, porque estava muito difícil cuidar das tarefas de mãe e pai.  Entretanto, perdera o encanto por ele. Parecia-lhe um estranho, que não lhe despertava nenhuma emoção.  Contou que, certo dia estava em casa e recebeu um telefonema avisando que o marido sofrera um enfarto fulminante. Quando chegar ao hospital o encontrou sobre a pedra fria do necrotério.

Lia perguntou se ela lembrava o momento exato, em que o casamento começara a esfriar. Ficou surpresa ao saber de Raquel que nunca fora apaixonada pelo marido. Gostava dele, que fora bastante convincente quando começaram a namorar, logo após o rompimento do noivado dela, mas nunca sentira aquele amor ardente que tivera por Jorge, e na verdade, jamais o esquecera. A lembrança daquela figura ágil, alegre, de olhos azuis e a pele muito branca,  contrastando com o verde-oliva do uniforme e o quepe caindo ligeiramente para a direita, permanecia em suas retinas, tal qual uma foto na moldura ou um cartaz de cinema.  Lágrimas desceram pelo rosto de Raquel.

Comovida, Lia não sabia o que dizer para animar a irmã. Falou que Raquel precisava se concentrar nos filhos, que todos estavam muito bem, tinha um neto lindo. Insistiu que precisava tirar partido daquilo que a vida lhe oferecera, que seus filhos eram maravilhosos... De repente, Raquel secou os olhos com as mãos e disse quase áspera, que a irmã não sabia de nada. Que a sua angústia era ainda maior pelo fato de ter descoberto, antes da morte do marido, que seu segundo filho estava com AIDS. Por que a vida fora tão cruel com ela? Por que logo o seu filho? Tanto que orientara dos riscos e dos cuidados que deveriam ter. E agora estava ali, sem saber o que fazer diante de tal fatalidade. 

Raquel estava arrasada. A morte do marido acontecera no momento em que ele a estava ajudando a lidar com a AIDS do filho. Quando cedera aos argumentos e pedidos de perdão dele, passando por cima de todas as humilhações que sofrera ao ser abandonada e iniciara um lento e tateante retorno. Enfraquecida diante da doença do filho, resolvera rever seus conceitos e levar uma vida plena de casal, para que juntos pudessem cuidar dele.

Lia quis saber o que ela ainda sentia por Jorge, seu amor da juventude. Então ela revelou à irmã que no último telefonema, quando soube que ele estava tão perto, sentiu uma revolução interior, então, achou que deveria lhe dar uma chance. Ela também precisava sentir-se beijada e abraçada. Só de pensar suspirava e amortecia, por momentos, a dura realidade. Os bons tempos do “oh, oh, Cupido” voltavam e ela ouvia, de fato, os acordes metálicos e vibrantes dos bailes e da animada orquestra de Glenn Miller. Era o Paraíso! Raquel volteava dançando sozinha pela sala, de olhos fechados, os braços imaginariamente abraçando seu “Marlon Brando”. Nem se importava de parecer ridícula beijando o ar. Entretanto, não aceitou a proposta dele de se encontrarem. Um grande amor do passado poderia voltar como se nada tivesse acontecido? Ou seria melhor permanecer na fantasia dos bons tempos?    Dúvidas, muitas dúvidas. Talvez fosse melhor esquecer e levar uma vida sem grandes emoções.

A doença do filho, a morte do marido, as dúvidas se deveria aceitar o convite de Jorge acabaram por lhe provocar uma grave crise de hiperglicemia, que a levou ao hospital. Os filhos, aflitos, pediram ajuda à tia. Lia telefonou para Raquel e perguntou o que acontecera para lhe provocar uma crise tão séria?  Ela contou de suas dúvidas, Jorge em seu último telefonema dissera-lhe que estava morando no Rio e insistira para que se encontrassem, o que a deixou muito ansiosa.  A irmã lhe disse que ela deveria sim, se encontrar com Jorge, afinal, não tinha nada a perder. Depois de tanto sofrimento o que viesse seria lucro.

Ao sair do hospital, Raquel foi levada pela irmã e os filhos para a casa desta, a fim de repousar e se recuperar mais rápido. Conversavam na sala de visitas quando a campainha tocou. Lia atendeu. De imediato reconheceu Jorge que se apresentou e justificou sua presença. Telefonara para Raquel e soubera que saíra do hospital e estava em casa da irmã. Depois de explicar que era um amigo da família, conseguiu que lhe dessem o endereço. De fato, o cara era mesmo bonito! Ele estava preocupado e queria notícias de sua ex-noiva.  A dona da casa o conduziu até a sala e, em seguida saiu com os sobrinhos, para que deixassem a mãe à vontade com o amigo.

Fechando a porta atrás de si, Lia ainda pode ouvir Jorge, ajoelhado ao pé do sofá, pedindo a Raquel que o deixasse cuidar dela e dos filhos. Queria recompensá-la por todo o sofrimento que lhe causara. Ela finalmente acedeu.  Era o que ela queria mesmo. Um beijo selou o reencontro.  E a voz de Claudinha Telles cantando ao som do rock, “oh, oh Cupido, vá longe de mim!”... mistura-se ao som da orquestra de Glenn Miller enchendo o ambiente com o som vibrante e alegre das músicas que tantos bailes e sonhos embalaram.  E os aplauso de Lia e sobrinhos os fez voltar à realidade. Os bons tempos voltaram!!!! A felicidade, enfim!!!!                                                                            

Praia do Anil, 06 de setembro de 2009

Benedita Azevedo

Subsolo

ImageAnos 50, Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro.

À rua pacata chega uma mudança inusitada: em pequeno, velho e maltratado caminhão os trastes de uma família vinda da Favela da Maré.

Sete nordestinos magros e tensos: Juventino Feliciano Beserra, servente da universidade, bêbado contumaz, sua mulher Judite, ajudante de enfermagem, três filhas e dois filhos.

Foram ocupar um subsolo de 35 m², até então quarto e banheiro de garagista.

Foram recebidos com os gritos de uma menina, de edifício fronteiro: “Mãe vem ver que gente tá chegando p’ra estragar a nossa rua!”

A primeira providência, dos Beserra, foi retirar de Curiçica, a velha Bembem, deficiente mental e mãe de Judite. Colocaram-na para fazer todo o serviço e ainda ficavam com sua minúscula aposentadoria e os trocados da pensão que lhe deixara o marido: Maneco, conhecido com Vaca Velha.

Para a doente o genro estabeleceu uma limitação: proibida de comer carne.

Quando Bembem beliscava um naco de carne crua, na geladeira, o mundo vinha abaixo.

O problema foi contornado: a deficiente passou a ter duas horas por dia, após servir o almoço, para esmolar. Bembem, com as moedas ganhas, passou a comer, no botequim próximo, algumas fatias diárias de carne assada.

Qualquer serviço mal feito, reclamação ou muxoxo, da empregada forçada, era motivo para que a filha lhe enchesse as fartas bochechas de tapas.

O circo de horrores tinha outros desdobramentos.

O casal era separado, havia anos. O jejum sexual levou Juventino a vinganças: por várias vezes estuprou a sogra e tentou, sem êxito, fazer o mesmo com as filhas e filhos.

O espancamento, indiscriminado de toda a família, era orquestrado pelo servente com um porrete de gabiroba.

Mais uma bomba cai sobre o conturbado subsolo: a primeira filha está grávida de um vizinho casado, policial com fama de matador.

A grávida emigra clandestinamente para a Flórida e lá dá a luz e se casa com rapaz da ralé branca.

A situação da primeira filha, em relação ao padrão anterior, foi comemorada como um sucesso pela mãe e irmãos.

A primeira filha havia abandonado o subsolo subindo um pequeno, mas significativo, degrau da vida.

Casada, com greencard, marido e filho americanos consegue levar a segunda filha para a edenizada Florida.

A segunda filha se casa com velho senhor cubano, bem mais abonado que o cunhado.

A segunda filha havia abandonado o subsolo e alcançara rua classe média de subúrbio norte-americano.

Neste ínterim, o terceiro filho crescera e se tornara forte e violento, para sobreviver, embora fosse doce e carinhoso para a mãe e irmandade.

Agora, quando Juventino atacava alguém da família, o terceiro filho o punha nu, na pequena área de ventilação da casa, lá aplicava-lhe o remédio caseiro, ensinado pelo pai: surra com pau de gabiroba.

Juventino virou manso e passou a curtir suas bebedeiras ao relento, no mesmo ponto onde, diurnamente, sua sogra esmolava.

Da fama de forte e brigão o terceiro filho retirou sua profissão: guarda-costas e foi trabalhar, tempo integral para astro pop.

O terceiro filho deixara o subsolo para viver, comodamente, na casa do patrão e, passado pouco tempo, casa com uma cria do astro.

O quarto filho saíra do subsolo antes do irmão mais velho. Passara a procurador da avó e seqüestrava-lhe os pingues ganhos, com os quais se sustentava.

Dado a amores heterodoxos passa a fazer parte de grupo de danças judaicas, lá cresce e se torna, além de dançarino, coreógrafo e muda-se, em definitivo, para Israel com um bom ordenado e reconhecimento da sociedade sabra.

O quarto filho deixara o subsolo em posição privilegiada, estrela da dança popular judaica.

Com diferença de poucos meses Juventino morre de câncer no reto e Bembem de falência dos órgãos vitais.

Judite, sem os dois estorvos de sua vida, muda-se para a Florida e encontra bom trabalho como acompanhante de senhoras idosas.

A quinta filha se prostituía desde os 15 anos, chegava, em casa, de madrugada levada por carrões dirigido por sua clientela específica: velhos ricos.

Dia houve que engravidou, ameaçou e fez chantagem contra o pai do futuro rebento.
Temendo a mulher e os filhos passou a sustentar a quinta filha que, surpreendentemente abandonou a profissão.

Corre o boato que o velho lhe comprou um belo apartamento da Barra e que ela está de mudança.

Concretizado o boato a quinta filha terá deixado, em breve, o subsolo.

Os Beserra não mais estragarão a pacata rua de Laranjeiras.

Gilson Nazareth

Aventura de hotel

ImageNaquele hotel da rua do Catete havia uma sociedade heteróclita mas toda bem colocada. O proprietário orgulhava-se de ter o senador Gomes com as suas sobrecasacas imundas, o ex-vice-presidente da ex-missão do México, a primeira ex-grande atriz de revista, com o seu cachorro, Mme de Santarém, divorciada pela quarta vez em diversas religiões, o barão de Somerino do Instituto Histórico, um negociante tuberculoso chegado das altitudes suíças com o fardo enorme da esposa, o engenheiro Pereira mais a mulher, mais sete filhos, mais a criada, a notável trágica Zulmira Simões em conclusão da sua última peregrinação provincial em companhia do elegante Raimundo de Souza, duas senhoras entre viúvas, solteiras ou estritamente casadas, enfim, todo um mundo variado, mas que pagava bem. De resto, o proprietário, como assegurava a ex-estrela de revista, correspondia, isto é, servia com cuidado. Havia eletricidade em todos os quartos, um aparelho de duchas no terraço de cima e um cozinheiro chinês.

Ao almoço era curioso ver toda aquela gente na sala de baixo, ornada de palmeiras e de flores comuns, entre os metais polidos das guarnições das mesas. A sala era baixa, com uma luz baça de recanto submarino Parecia um aquário. A mim pelo menos. As atrizes tomavam ares graves de peixes evoluindo cerimoniosamente no fundo d'água para cumprimentar as damas sem palco; os homens eram reservadíssimos. Tudo aquilo mastigava calado, cada um na sua mesa, batendo o talher. Só quando havia hóspede novo é que surgiam frases breves.

– Quem é?

– O deputado Gomensoro.

– Ah!

Sempre grandes nomes, gente importante, um complexo armorial de celebridades funcionárias e de titulares empastilhados. E à noite, no saguão guarnecera de um indizível mobiliário hesitante entre o estilo otomano, os belchiors e o confortável inglês, podia-se ver os representantes de todas as classes sociais desde a diplomacia até o trololó.

Precisamente tínhamos mais dois hóspedes, o velho ministro do Supremo, Melchior, e seu sobrinho Raul Pontes, rapaz elegante, vivaz, espirituoso, com vinte anos irresistíveis. Todos no hotel respeitavam Melchior e gostavam do Raul, e ainda ninguém esquecera a sua verve quando o deputado Gomensoro, depois de apertar-lhe a mão, dera por falta do relógio. Onde se fora o relógio? No bonde? Roubado? Saíra Gomensoro com ele? O Dr. Raul Pontes ria a bom rir. O relógio evaporara-se decerto. Era o calor. E ficou muito bem aquele estouvamento, tanto mais quanto o velho Melchior representante da justiça, mostrava-se incomodado.

No dia seguinte, ao vestir-me para o almoço, lembrei que na minha gravata creme ficava bem um alfinete de turmalina azul com brilhantes do Cabo, linda jóia e lindo presente. Abri a gaveta onde deixara à noite. Não estava lá. Abri outras gavetas, procurei, remexi malas e bolsas. O alfinete desaparecera. Quis descer, prevenir o gerente. Mas contive-me. Podia tê-lo atirado para qualquer canto. Quando se quer achar um objeto, a gente está vendo-o e é como se não o visse. Depois uma queixa sem provas contra o criado acirra a má vontade. Menos talvez que as queixas com provas, mas sempre o bastante para sermos malservidos. Eu sou prudente. Três ou quatro dias depois, no saguão, o senador Gomes, que só tinha livros e roupas velhas no seu aposento, perguntou-me de repente:

– Você tem um alfinete de turmalina azul, não?

Além de prudente, sou inteligente. Por que diabo naquele distinto hotel, o senador indagava de um alfinete desaparecido? Tê-lo-ia apanhado por farsa? Era pouco próprio para o alto cargo legislativo, mas para mim uma confiança simpática. Fez-me o efeito de um piparote no ventre. Respondi:

– Tenho sim. Por que pergunta? Ainda hoje sai com ele...

Gomes travara com a genial Zulmira Simões, oráculo teatral de aquém e de além-mar, uma discussão superior sobre Calderon de la Barca, a quem, aliás, ambos imputavam várias peças de Lope de Vega. Em tão elevada esfera da dramaturgia espanhola, Gomes não respondeu à minha pergunta, e eu que nessa noite não saí de casa, ao subir antes do chá, encontrei no corredor apenas o velho Melchior meio abatido, fechei a porta por dentro, dormi e no dia seguinte dei por falta do meu porte-monnaie de prata. Coisa estúpida afinal!

O gatuno – porque era o gatuno, não havia dúvida, – o gatuno ou farsista sem graça deixara a minha carteira e deixara até os níqueis, certo para mostrar que aquilo era seu, que aquilo estava ali porque ele voltaria. Que fazer? Prevenir o proprietário? Mas eu estava num hotel tão distinto! Era pouco correto e estabeleceria o desequilíbrio na confiança geral. Não! seria melhor esperar.

No dia seguinte, como voltasse de ouvir o D. Cesar de Bazan com Zulmira Simões e o brumeliano de Sousa, enquanto de Sousa subia à frente, a atriz murmurou:

– Ah! meu amigo, este hotel tem casos curiosos... Sabe que fui roubada?

– Sério?

– Sim. O objeto tinha um valor todo estimativo, era um berloque que me dera o Raimundo logo no começo da nossa ligação. Não lhe diga nada que o incomodaria. De resto, não sou eu a única. O Dr Pontes foi também roubado no seu porte-monnaie.

– Como eu!

– O Sr. também? Mas estamos na caverna de Ali-Babá.

Horas depois felizmente rebentava o escândalo. Pela manhã, Mme. de Santarém dera queixa por lhe terem roubado um face â mam de madrepérola com incrustações de ouro sob desenhos, dizia ela, de um pintor húngaro. E o gerente pôs fora o criado Antônio, porque a ele faltavam também passadores de guardanapos – dois, três por dia. Antônio saiu protestando, furioso. Falou até de processo por perdas e danos. Era um ladrão cínico. E durante o almoço a conversa generalizou-se. Ninguém escapara. O que acontecera comigo acontecera com de Sousa, com o barão de Somerino, com o negociante tuberculoso, com o ex-vice-presidente da ex-missão do México, com a estrela revisteira, com o Dr. Melchior. Todos tinham sido roubados e confessavam por desabafar. Havia até mesmo recordações. O Dr. Pontes, o nosso caro Raul, indagava da genial Simões:

– V. Excia. andava à cata do ladrão naquele dia em que a encontrei no corredor?

– Não; ainda não sabia. Tive apenas um pressentimento. Acho que deviam prender o homem.

– Mas não há provas! exclamava Mme. de Santarém. Não encontraram nada! Era esperto. No dia em que desapareceu o meu face â mam, não saí do quarto.

– Roubos excepcionais...

– Estamos no domínio dos ladrões geniais.

– Precisamos de um grande agente dedutivo para resolver o crime...

– E prender o Antônio copeiro? Ora para ladrões desse gênero basta a nossa polícia!

Aliás o tal Antônio gatuno parecia mais um doente. O homem afinal não tirara nunca dinheiro, e as argolas de guardanapos do hotel eram lastimáveis como valores. Mas, fosse gatuno genial ou doente, Antônio partira e a confiança renascia. Passamos assim uma semana e, com grande pasmo nosso, Mme. de Santarém e a atriz Zulmira Simões, no mesmo dia, à mesma hora, encontraram em cima do lavatório, uma o seu face â mam, outra o seu berloque.

É uma aventura! É um caso de diabolismo! sentenciava o negociante tuberculoso.

O hotel convulsionava-se. Só o senador Gomes resmungou:

– Que besta!

E aquela frase dita tristemente preocupou-me. No fundo, porém, o sujo e ilustre homem tinha razão. O gatuno, ou o sportman da ladroeira não era Antônio, era outro, existia, anunciava a sua presença, estava ali, ao nosso lado. Audácia? Loucura? Estupidez? No dia seguinte deu-se por falta do colar de ouro com pedras finas da atriz Simões, os brincos da mulher do tuberculoso sumiram-se. Foi o terror. Os hóspedes trancavam o quarto e saíam levando os valores no bolso, mesmo para almoçar. A limpeza era feita na presença dos respectivos locatários. Já ninguém se falava direito, já ninguém conversava. Havia entre nós um ladrão. Um ladrão! O medo prendia as senhoras aos quartos. Ninguém saía sem necessidade urgente, com receio de ser apontado pelo menos um segundo, como o fora o Antônio. Éramos os forçados daqueles crimes; tínhamos que chegar à tragédia. O gerente, lívido, armava uma polícia interna ferocíssima; os criados serviam, coitados! com uma humildade dolorosa, temendo a suspeita, o ex-vice-presidente da ex-missão do México teimava em escrever ao chefe de polícia, em varejar os quartos.

– Pelo amor de Deus! gemia o proprietário.

– É outra tolice, acrescentava Gomes. Nós temos aqui gente respeitável.

– Pois está claro! dizia logo Mme de Santarém, divorciada pela quarta vez.

E, apesar da vigilância, continuaram a desaparecer objetos. Não era possível! Ou sair, ou dar queixa à polícia.

Uma vez encontrei na cidade Melchior e Pontes, acompanhando Mme de Santarém a uma confeitaria. Eram duas horas da tarde. Voltei à pensão. Por uma coincidência, morava no mesmo corredor que essas três pessoas, mesmo pegado ao senador Gomes. Estava a despir-me, quando senti passos abafados. Abri a porta devagar. Era o alegre e sempre espirituoso Pontes. Vinha para o seu quarto. Mas não. Parou no quarto de Mme. de Santarém, experimentou uma chave, torceu, entrou. Oh! a imoralidade dos hotéis honestos! O felizardo ia gozar as delícias de um aprês-midi amoroso com a honestíssima senhora! Pouco depois, porém, ouvi um leve rumor, espiei de novo. Era Pontes, com o ar mais natural, que fechava o quarto e andava ligeiro. Quis fazer-lhe uma pilhéria, gritar; - aí maganão! ou outra parvoice qualquer - porque eu sou de natural pândego. Mas deixei para o jantar, recolhi. E no jantar Mme de Santarém, que chegara momentos antes, apareceu transmudada: tinham-lhe roubado o broche de rubis.

Estávamos todos no salão e sustiveram-se todos num pasmo raivoso, quando a gentil senhora bradou:

– Acabam de roubar o meu broche de rubis! Mais um!

Os meus olhos cravaram-se no Dr. Pontes. Tinha o mesmo pasmo dos outros, o mesmo ar, o mesmo olhar.

Uma idéia atravessou-me o espírito. Era ele o gatuno! Não havia dúvida. Era agarrá-lo ali, logo... Mas se fosse apenas o amante? Afinal era um homem que devia respeitar a família e o tio!

As provas eram contra ele, absolutamente contra. No hotel ninguém poderia lembrar-se de sair depois daqueles roubos. A situação precisava ficar clara. Eu cometeria um escândalo, diria ali que o vira entrar no quarto de Mme de Santarém e as explicações viriam depois.

Ia falar, ia contar tudo, quando senti que pesavam em mim os dois olhos do senador Gomes, enquanto este, balançando a cabeça, balançando a faca entre os dedos, parecia por todos os modos pedir-me para não dizer nada. Gomes sabia! Desde o dia em que falara do meu alfinete! Contive-me. Mesmo porque entravam a Pepita, mais o seu cachorro, ambos desesperados com o desaparecimento de um anel marquise, admirável, segundo a opinião da estrela.

O engenheiro Pereira ergueu-se.

– Gerente! Não fico mais um dia no seu hotel. A situação é delicada para o primeiro que sair do ergástulo, mas eu arrosto-a. Tenho família, tenho uma esposa nervosa e tenho valores. Sou o engenheiro Salústio Pereira. As minhas malas passam pelo seu balcão, para o exame. Tire-me a conta...

O diplomata, que, entretanto, devia cinco semanas, teve um esforço:

– Eu também saio.

Os outros ficaram quietos, incapazes, mas com grande admiração minha, o Dr. Pontes falou:

– Vivemos nesta aflição há já algum tempo. Há um gatuno aqui, ou um gatuno de fora que possui a chave.

– É isso, a chave... atalhei eu.

– Mas apesar do mútuo respeito que nos devemos, a desconfiança existe. Ora, eu já pensei mal de meu tio. Proponho, pois que ao sair daqui, façamos uma passeata pelo hotel, entrando e varejando todos os quartos. Serve?

Eu tinha acabado de sorver o café e admirei Pontes: ou um gatuno esplêndido ou um inocente. Em compensação, o senador Gomes olhava a porta absolutamente pálido. Que se iria passar?

– Serve? tornou a dizer Pontes.

– Mas está claro, fez o Gomes. Partimos todos para a passeata lá da entrada. É o meio alegre de acabar com uma pressão séria.

– Apoiado! Este Pontes sempre o mesmo!

Mas Gomes erguia-se no rumor das exclamações.

Erguia-me, alcancei-o no corredor Estávamos sós. Sussurrei-lhe:

– O gatuno é ele. Vi-o entrar no quarto da Santarém...

– Não é.

– Então quem é?

– Não sei.

– É impossível negar mais tempo. Ou o senhor diz-me ou eu explico tudo em público. Só o muito respeito...

Gomes teve um gesto alucinado, junto à escada que dava para os aposentos superiores.

– Nada de palavras inúteis. Jura segredo?

– É um crime.

– Jura?

– Juro.

– Pois salvemos uma pobre mulher, salvemos uma desvairada, meu amigo, salvemo-la! Não, pergunte por quê. Amo-a como pai, como amante, como quiser.

É ela que rouba, é ela. Não há meio de impedir Vou mandá-la embora e ao mesmo tempo tremo de vê-la no cárcere. É louca. Neste momento mesmo estamos à mercê da sorte e do disparate do Pontes, a quem eu devia odiar Mas vamos salvá-la. É preciso salvá-la. Tudo será restituído. Já tenho feito isso. Psiu! Esconda-se, esconda-se. Aí debaixo da escada. Não a veja, não a veja...

Alguém descia a escada sutilmente. Escondi-me com o coração batendo, enquanto Gomes amparava-se ao corrimão. O silêncio parecia aumentar a vastidão da escada. A voz do Gomes indagou:

– Tudo?

– Sim, meu medroso, sim, eu tinha tudo junto. Toma. E agora, até...

O vulto passou para o saguão de entrada. Da sala de jantar vinham vindo os hóspedes, excitados com aquela investigação policial aos quartos. Trêmulo, lívido, Gomes meteu-me na mão um embrulho, enquanto empurrava nas vastas algibeiras da sobrecasaca e da calça outros pequenos rolos, a dizer:

– Amanhã, restituiremos pelo correio, amanhã saem muitos. Sê bom, salva-a!

Era atroz, era trágico, era ridículo ver aquele homem ilustre e honesto a guardar os roubos de uma cleptomaníaca satânica e era estúpido o que eu fazia! Mas irresistível.

Fosse quem fosse essa gatuna inteligente, era de uma ousadia, de um plano, de uma afoiteza, de um egoísmo diabolicamente esplêndidos. Estiquei o pescoço na ânsia da curiosidade, a saber quem era, a ver quem podia ser no hotel tão cheio de hóspedes, aquela de que me fazia cúmplice, aquela que misteriosamente, impalpavelmente, durante um mês, trouxera ao hotel atmosfera de dúvida, de crime, de infâmia. E, contendo um grito de pasmo, vi Mme de Santarém entrar no saguão sorridente e calma.

João do Rio

O homem que sabia javanês

ImageEm uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. Houve mesmo uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.

O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:

— Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!

— Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado!

— Cansa-se; mas não é isso que me admiro. O que me admira é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.

— Qual! Aqui mesmo, meu Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês?

— Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?

— Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.

— Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?

— Bebo.
Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:

— Eu tinha chegado havia pouco ao Rio e estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anúncio seguinte:

"Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas etc".

Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os "cadáveres". Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir, mas entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi.

Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e à língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo malaio-polinésio, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.

A Enciclopédia dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras.

Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.

À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente. Convenci-me de que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:

— Senhor Castelo, quando salda a sua conta?

Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:

— Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e... Por aí o homem interrompeu-me:

— Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?

Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem.

— É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?

Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:

— Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe disso, Senhor Castelo?

Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.

Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao Doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres de que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar responder "como está o senhor"? e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico.


Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil — pode ficar certo — aprender o javanês... Fui à pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir simpatia pela natureza...

Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava maltratada, mas não sei por que me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou malcuidadas.

Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelos de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento.


Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antigüidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz.  Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...

Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.

— Eu sou — avancei — o professor de javanês, de que o senhor disse precisar.

— Sente-se — respondeu-me o velho. — O senhor é daqui, do Rio?

— Não, sou de Canavieiras.

— Como? — fez ele. — Fale um pouco alto, que sou surdo.

— Sou de Canavieiras, na Bahia — insisti eu.

— Onde fez os seus estudos?

— Em São Salvador.

— Em onde aprendeu o javanês? — indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos.

Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de uma navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.

— E ele acreditou? E o físico? — perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado.

— Não sou — objetei — lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço malaio... Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.

— Bem — fez o meu amigo —, continua.

— O velho — emendei eu — ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, e pareceu que me julgava de fato filho de malaio, e perguntou-me com doçura:

— Então está disposto a ensinar-me javanês?

— A resposta saiu-me sem querer. Pois não.

— O senhor há de ficar admirado — aduziu o Barão de Jacuecanga — que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas...

— Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos...

— O que eu quero, meu caro senhor...?

— Castelo — adiantei eu.

— O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me que mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz.." Meu pai — continuou o velho barão — não acreditou muito na história; contudo guardou o livro.  Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, e não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro que preciso entender o javanês. Eis aí.

Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.

Veio o livro. Era um velho calhamaço, um inquarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.

Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano.

Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia.

A filha e o genro ( penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram coisa boa para distraí-lo.

Mas com que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa única! Ele não se cansava de repetir: "É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava!"

O marido de Dona Maria da Glória ( assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.

Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens!... Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia a seus olhos! Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada.

Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a coisa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.

Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo de que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. — "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!" Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso.

O diretor chamou os chefes de seção: "Vejam só, um homem que sabe javanês — que portento!"

Os chefes da seção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!"

O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro.

A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, consertou o pince-nez no nariz e perguntou: " Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Àsia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no congresso de Lingüística. Estude, leia o Hove-Iacque, o Max Müller, e outros!"

Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.

O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento.

Pus-me com afã no estudo das línguas malaio-polinésias; mas não havia meio!

Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês." Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entender o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Commércio, um artigo dequatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna...

— Como, se tu nada sabias? — interrompeu-me o atento Castro.

— Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografia, e depois citei a mais não poder.

— E nunca duvidaram? — perguntou-me ainda o meu amigo.

— Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava em língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês — uf!

Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na seção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela seção; não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano-brasileiro, me estava naturalmente indicada a seção do tupi-guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi.

Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e em Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.

Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da República, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.

Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.

— É fantástico — observou Castro, agarrando o copo de cerveja.

— Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser?

— Quê?

— Bacteriologista eminente. Vamos?

— Vamos.

Lima Barreto

Os olhos de Alice

ImageEram claros. De um azul que se fingia verde, dependendo da luz. Amendoados, mas não muito. Belos. Suavemente belos os olhos de Alice. E encerravam estranho enigma aqueles olhos.

Às vezes ela se perguntava como o fenômeno havia começado. Lembrava que desde muito cedo, aos sete, oito anos, por aí, ou menos até, porque talvez antes, ungida de inocência, não soubesse avaliar o fantástico poder que trazia nos olhos.

Vou contar...

A Alice era dado saber quais as pessoas marcadas para morrer. Simplesmente porque, ao primeiro olhar, os que caminhavam em direção à morte tornavam-se invisíveis aos seus olhos. A velhinha da esquina, solitária em seu chá vesperal na varanda envidraçada, um dia sumiu diante daqueles olhos claros e de leve amendoados. Passaram-se apenas três dias e a notícia chegou a casa de Alice, na época com nove anos. Foi a certeza que não queria ter: haveria de por toda a vida saber quem estava prestes a fechar os olhos.

Alice agora vivia a véspera de completar 40 anos. Funcionária pública que estudara com bastante sacrifício, conseguira passar no concurso para a Previdência Social. Salário bom, comparado com a média brasileira, sempre aquém do mínimo. Um apartamento de dois quartos. Bem situado e mobiliado mais com bom gosto do que com ostentação (aliás, tinha hábitos bem sim pies). Um carro usado, mas em ótimo estado. Poucas idas ao mecânico. Viagens nas férias com o novo namorado, pois não podia ficar o ano inteiro no mesmo lugar, nem com o mesmo companheiro. Não suportava. Ainda assim, vida normal a de Alice, para quem até seu estranho dom acabara se tornando comum, tantas vezes sucedera.

Ao longo dos anos, previra a morte de um a um de seus familiares mais velhos: primeiro a avó Judite, sua paixão neste mundo; depois, a alguma distância uns dos outros, o avô, o pai, a tia solteira, a mãe. Antes desta, o irmão, mais velho dois anos, que certa noite enfiou a motocicleta debaixo de uma carreta. Morte instantânea.

Há poucos dias, entrara na repartição e a imagem do chefe, cara de poucos amigos como sempre, desfizera-se logo em seguida. Um enfarto fulminante o levaria no fim daquela mesma tarde, enquanto discutia com um subordinado.

Era assim a vida de Alice. Uma sucessão de acontecimentos funestos, como a de todos, mas sem a dor e a surpresa do inesperado. Queria ao menos poder não antecipar o choro por seus mortos, porque durante os velórios as lágrimas já haviam secado por completo. Mas que fazer? Eram seus olhos.

Naquele sábado de abril Alice acordou feliz de maneira especial. Escancarou a janela do quarto e respirou fundo o ar da manhã. Passou a mão na cabeça para abaixar os cabelos e se lembrou da hora marcada no cabeleireiro. Um banho rápido, mas delicioso. Perfume nos pulsos e sob as orelhas. Com um sorriso pegou sobre a poltrona o pente de madeira que fora da mãe. Então mirou o espelho. E dominada por infinito terror, foi aos poucos se desintegrando na luz dos seus olhos claros.

Sérgio Bernardo

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