João do Rio - Revista Internética

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A voz anônima das ruas

Ano 8 - Edição número 44
Agosto / Setembro de 2010


Diretores: Gilson Nazareth
              Márcio Salgado


Programação Visual: Massanobu Endo

Equipe: Benedita Azevedo
           Joana D'arc






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Colaboradores:
Diorindo Lopes
Domi Chirongo
Geraldo Lino
Luiz Antonio de Almeida
Rita Maria Felix da Silva
Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Toni Marins

 

 

Início seta Crônica Carioca seta Crônica - Número 41

 

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Ano 7 - Número 41
Fevereiro / Março de 2010

CRÔNICA CARIOCA

Fragmento do livro Ponciá Vicêncio

ImagePonciá Vicêncio gostava de ficar sentada perto da janela olhando o nada. As vezes, se distraía tanto que até se esquecia da janta e, quando via, o seu homem estava chegando do trabalho. Ela gastava todo o tempo com o pensar, com o recordar. Relembrava a vida passada, pensava no presente, mas não sonhava e nem inventava nada para o futuro. O amanhã de Ponciá era feito de esquecimento. Em tempos outros, havia sonhado tanto! Quando mais nova, sonhara até um outro nome para si. Não gostava daquele que lhe deram. Menina, tinha o hábito de ir à beira do rio e lá, se mirando nas águas, gritava o próprio nome: Ponciá Vicêncio! Ponciá Vicêncio! Sentia-se como se estivesse chamando outra pessoa. Não ouvia o seu nome responder dentro de si. Inventava outros. Panda, Malenga, Quieti, nenhum lhe pertencia também. Ela, inominada, tremendo de medo, temia a brincadeira, mas insistia. A cabeça rodava no vazio, ela vazia se sentia sem nome. Sentia-se ninguém. Tinha, então, vontade de choros e risos.

O homem de Ponciá acabava de entrar em casa e viu a mulher distraída na janela. Olhou para ela com ódio. A mulher parecia lerda. Gastava horas e horas ali quieta olhando e vendo o nada. Falava pouco e quando falava, às vezes, dizia coisas que ele não entendia. Ele perguntava e quando a resposta vinha, na maioria das vezes, complicava mais ainda o desejado diálogo dos dois. Uma noite ela passou todo o tempo diante do espelho chamando por ela mesma. Chamava, chamava e não respondia. Ele teve medo, muito medo. De manhã, ela parecia mais acabrunhada ainda. Pediu ao homem que não a chamasse mais de Ponciá Vicêncio. Ele, espantado, perguntou-lhe como a chamaria então. Olhando fundo e desesperadamente nos olhos dele, ela respondeu que poderia chamá-la de nada.

O homem de Ponciá estava cansado, muito cansado. Sua roupa empoeirada, assim como o seu corpo, porejava pó. Ele e outros estavam pondo uma casa, antiga construção, abaixo. Tarefa difícil, cada hora era um que pegava na marreta e golpeava as paredes que resistiam. Ele se lembrava, a cada esforço, do barraco onde moravam e que flutuava ao vento. Ao ver a mulher tão alheia, teve desejos de trazê-la ao mundo à força. Deu-lhe um violento soco nas costas, gritando-lhe pelo nome. Ela lhe devolveu um olhar de ódio. Pensou em sair dali, ir para o lado de fora, passar por debaixo do arco-íris e virar logo homem. Levantou-se, porém, amargurada de seu cantinho e foi preparar a janta dele.

Conceição Evaristo

Almoçando na paquera

Image– Urbano, você tem certeza que ela almoça aqui, todos os dias?

– Não a vejo faz, hum, hum... creio que...15 anos.

– Urbano, oh cara, você é meu amigo ou não, a idéia de comer aqui, na Visconde de Silva, foi sua.

– Dia de caça à Lucinha Pontes e não fique me olhando com esta cara de bocó, diga rien ou merde.

– Ela trabalha, mesmo, como arquiteta em Furnas? Sei nadica dela, não a vejo desde os tempos da faculdade, só mesmo você para redescobri-la e, além do mais, sabê-la recém divorciada; como foi que soube?

– Gostei muito desta mesa, não sei por que você não queria que sentássemos neste canto. Vou ficar marcando a porta para vê-la chegar.

– Ah, a gostosa, ágil e sensual: uma panterona.

– Será que o ex-marido a fez desistir daqueles decotes abissais?

– Lucinha, Lucinha, divorciada, livre, leve e solta...

– Oh, Urbano, me responde cara, viemos aqui para revermos a Lucinha, agora divorciada, aquele piteuzinho solto por aí.

– Você nem imagina como ela era nos amassos que dávamos, dentro daquele Gordini azul marinho que eu tinha nos tempos da universidade. Ela era, e deve continuar, fogo e está sozinha, ferida... é a hora para o bote.

– Urbano, que muxoxo é este, virou moralista? Tô de fogo mesmo, reacendeu o tesão, tô a fim de sacanagem.

– Fala, cara!

– Agora, cala você esta matraca, já posso lhe responder.

Viu aquela gorda, de cabelo pintado de vermelho, com um decote imenso mostrando dois peitões flácidos e que estava sentada na mesa grudada à nossa?

– Ví, Urbano, mas não prestei atenção, aquilo era um bagulho, um tribufu.

– Ela desistiu de esperar o almoço e saiu chorando, era a Lucinha.

Gilson Nazareth

Revisitando Rosa

ImageTerça passada fiz uma viagem. Elida pediu. Fui primeiro ver Catarina. Entrei pela porta da frente, rodei a casa toda, mas ela não estava lá. Estaria, talvez, na roça àquela hora, colhendo um feijão parco ou dando milho aos pintos. Não fiz ruído nem chamei por ela. Saí, tomando a estrada. Caminhei um pouco e, em tempo de pensamento, cheguei à casa de D. Rosa, um quilômetro dali. Tampouco vi ninguém quando entrei pela cozinha. Nem percebi se o fogão estava aceso. Devia estar: nunca apagava e tinha sempre café quente no bule de ágata verde. Passei pela sala de jantar com sua enorme mesa de tábuas corridas - será que era mesmo grande ou era eu que era pequena? – e seus bancos toscos, onde família e amigos se sentavam sem lugar determinado. Ah, quantas vezes me sentei ali para tomar leite fresco tirado ainda antes do sol nascer das vacas do pasto ou para comer arroz cheirando a urucum verde.

Passei a porta e entrei no quarto que sempre ousei chamar de meu. Na verdade, não era mesmo de ninguém especial. Era de hóspedes. E era também o quarto de costura de D. Rosa. Tinha uma janela grande que dava para o jardim. Um jardim onde rosas bravas trepadeiras estavam por todo o lado: vermelhas, brancas e uma cor de chá, muito linda, que subia emoldurando a janela do meu quarto.

Sentei na cama, só, no quarto vazio. E, sem angústia, olhei a porta da sala-de-jantar.


D. Rosa chegou, como chegava sempre. Me olhou, sorriu e se sentou na cadeira junto à máquina, consertando uma peça de roupa branca que tinha nas mãos. E eu continuei sentada, no canto da cama, sentindo o cheiro das rosas-chá da janela, do pasto pisado do outro lado da estrada e respirando carinho, o carinho que D. Rosa sempre me dava sem muito me tocar. Pensando bem, acho que era assim mesmo quando eu era pequena – ou era assim comigo, não sei – adultos nunca tocavam muito as crianças, nem muito se tocavam uns aos outros. Ao que me lembro, era feio demonstrar amor – ou, pelo menos, não era de "bom-tom". Ninguém se beijava em público, ou se abraçava sem razão concreta. Pêsames ou parabéns, coisas assim. Aos adultos um tapinha nas costas: às crianças um passar de mão na cabeça. Por isso, revisitando D. Rosa, respeitei-lhe o trato. E respirei carinho em seu sorriso. E nem me despedi direito ao sair. Deixei-a a consertar a roupa, deixei o quarto que cheirava a rosas - todas duas ou qualquer das duas. Deixei a casa que não está mais lá, com suas rosas, com seus cheiros, com seu café sempre quente no fogão...

...não está mais?... estará sempre lá, enquanto eu a tiver na lembrança...

...e revisitá-la, ainda será possível.

Ilnéa País de Miranda

O guarda

ImageVi o barco aportar nas altas escadarias de rocha. Os marinheiros, baixando as adriças, fizeram descer as flâmulas azuis-ferrete. O vento soprava com força incomum. As velas pararam de se movimentar, junto com os remos, deixando suas impressões sobre as últimas ondas, no marulho incessante do mar.

Do ponto em que me achava, sobre a popa, vislumbrei toda a extensão da ilha, de poucos quilômetros. Uma meseta, perfeitamente aplainada sobre o calcário, deixava erigir, do centro, como um farol do mundo, a gigantesca estátua, um deus argivo, os ombros fragmentando-se na abóbada de céu luminoso. Em seu peito ardente, bruxuleando como um lampião a óleo, o reflexo do sol extinguia-se, deixando-me na iminência da noite que se aproximava.

O homem vestia um longo uniforme com guizos e conchas. Os olhos, esbranquiçados, abriam-se para o dia interminável. Seus gestos eram efeminados, de eunuco. Sorria. Uma felicidade estranha, louca. Era o último remanescente da civilização que eu acabara de abandonar, colocado ali como guarda da ilha, esperando, paciente, a minha chegada.

Quando saí do barco, ele postou-se ao meu lado e, como um coreuta, subiu comigo até o topo do santuário. Antes que o sol se abandonasse nas ondas, agonizante, entre pulmões de vermelho vivo, o guarda deveria violentar-me aos pés da estátua, onde gaivotas traziam larvas para os filhotes famintos, em seus ninhos.

Deixei-me ficar sobre a meseta. Ele saltitava, ao redor de mim, como uma criança. Saltou sobre meu corpo, de cócoras, contorceu-se como uma lampreia, a arfar. Às cambalhotas, desceu pelas escadarias, desaparecendo nas ondas. Num arroubo de liberdade, transformou-se em golfinho.

O sol lançava seu derradeiro raio no horizonte. Este, incidindo sobre meu rosto em brasa, desmanchou-se em pequenas labaredas, garras luminosas, mandrágoras faiscantes, chamuscando meus cabelos, engolindo meu corpo que, de agora em diante, arderia por séculos, lume vivo, guia de todas as naus. A estátua minguava, à medida que a tarde esmorecia nas ondas.

Do barco, os marinheiros aguardaram até que a ilha se diluísse em sombras, até as cinzas.

Leonardo Vieira de Almeida

Campo

ImageTenho saudades de minha terra. Do rio Paraguai, das araras, Ceci e Peri. Do louro que imita a língua de todos os bichos e que gritava o meu nome quando atravessava o quintal. Da Chica da Silva, minha macaca assanhada, que adora caipirinha, e que se enamora dos homens morenos, e que não quer saber dos macacos. Do chico que era apaixonado pela Chica, mas que nunca a Chica quis se apaixonar por ele. Das garças, dos biguás, dos baguaris solitários, do quintal cheio de porcos, galinhas e dos galos que não se cansavam de trepar nas galinhas o dia inteiro. Da minha cobra sucuri, que na verdade não era minha, porque toda semana era mandada embora, para outra tomar o seu lugar: Jorgina número 53. Da ema Olga, nome dado em homenagem à mulher do Prestes, faceira e imponente, sempre pensando que era rainha do quintal. Do pintado, que era sempre pescado com muita manha e sabedoria, do dourado que eu nunca pesquei, do jaú que pesquei um dia e que tinha muitos e muitos quilos. Do passeio diário a cavalo, de Baicaju, que sabia voltar sozinho para a fazenda, de Flamengo, que era lerdo, e podia até dormir no caminho. Da travessia do rio Paraguai, a nado, um desafio pela correnteza de suas águas, e uma imensa vontade de ser parte do lugar. Da quantidade de vida borbulhante naquele espaço verde...

...Aqui estou! quatro paredes! e acho que não é nada difícil enlouquecer!

Maria Baptista

[friso

Eu e o Rio de Janeiro

ImageAinda cheirava a ninho, quando cheguei ao Rio de Janeiro, espremida na cadeira do avião,  com a boneca preferida no colo,  vestindo uma roupa igual a minha.  Vomitando até as tripas! Um grande desconhecido estava diante de mim! Aos oito anos de idade,  já somando experiência quase além dos meus limites.

Quando a aeronave sobrevoou a “Cidade Maravilhosa", eu estava abatida demais para achar a paisagem bonita! Havia deixado a família em São Luís do Maranhão e mal conhecida aquele charmoso primo desenhista que se empenhou em trazer-me para o Rio de janeiro.

Desci do avião num sufoco danado! Queria sorrir para a família do primo, que nos esperava no aeroporto, mas estava verde de tanto enjôo e plena de  saudades da mãe. Mas o  primo disse que eu iria  virar outra longe da superproteção materna. E virei.

 A partir daí, os dias  escorregavam rápido em todas as folhinhas, e eu ía descobrindo a nova cidade que estava me recebendo. Percebi a  simpatia do carioca, bem humorado, brincalhão  e me descobri aceita. Alguns adultos quando me viam, cochichavam: - É a sobrinha de D.Dina, que chegou do Maranhão.  As crianças me   achavam um pouco diferente. Acho que no sotaque.  Não é que elas puxavam mesmo um x no final da palavra? Pensei.  Veio-me a lembrança da  tia nordestina, que passou uma temporada em Copacabana, ao telefone:

– É mesxxxxxxxmo? Passei trexxxx horaxxx na fila, você acredita?

Sotaque forçado, porque não partia do nascedouro,  da alma carioca. Eu e minha irmã ficávamos rindo atrás da porta. Ela dizia, que no Rio de Janeiro, a gente encontrava com Zé Carioca, Pato Donald e outras figuras da Disney. Eu acreditava piamente.  Via as fotos das primas cariocas ao lado  daqueles personagens gigantes, que eu não sabia que eram de papelão. Talvez eu encontrasse Alice por afinidade. Afinal, ela não morava no País das Maravilhas e eu não estava na Cidade Maravilhosa?

As  crianças cariocas cercavam-me dizendo:

– Olha como ela fala engraçado,   mamãe! Não é uma boneca?

As maiores puxavam minha bochecha e diziam – Gracinha!

Pouco tempo depois eu estava enturmada! O sol bronzeava  minha pele e  engordei uns quilinhos.  O que eu encontrei no Rio, foi aquele clima descontraído do povo que se amarra no samba e é  gente gostosa e solidária. Esta terra é musical e colorida!

Brincando, brincando, o Rio se tornou minha segunda terra, como  é de muita gente que vem respirar sua beleza e trabalhar duro. Os  imigrantes portugueses, em grande número,  que se vestiam iguais. Calça preta de listras brancas e camiseta branca. A maioria era “burro sem rabo”. Faziam transporte puxando um carro de duas rodas. Depois montavam uma barraquinha na feira. Em seguida , abriam uma portinha para vender frutas ou artigos de armazém, depois compravam um espaço enorme,  montavam uma grande  loja  e ficavam ricos. Os nordestinos não. Raros conseguiam chegar à “classe média”.

Havia melhor coisa que tomar “Grapette “, geladinho, na padaria do Jardim Laranjeiras, ou  sorvete de casquinha, ou um  “Eskibom”, na praia, com a garotada do bairro?  Havia coisa melhor que desfilar no  carnaval, vestida de amarelo, no   bloco dos Piriquitinhos de Laranjeiras?  E frequentar a feira,  que era montada e desmontada como nossas brincadeiras de casinha? E o que falar da  água de coco em cada esquina,  passeios na praia,  vista do Corcovado e Pão de Açúcar? E a Cascatinha no alto da Boa Vista, onde eu tirava retrato com cada membro da família que vinha visitar o Rio? A Quinta e Alto da Boa Vista, Praia Vermelha na Urca, era tudo mágico. Eu nunca tinha visto prédios tão altos e praça tão linda como aquela dos bichinhos de folha – a Praça Paris!

Como estavam longe os curupiras e mães d’água da minha terra...  Tambor de Mina,  Tambor  de Crioula,  bumba-meu-boi... Manuês e cocadas, pirulitos, beijus, pamonhas e derressóis, quitutes vendidos  nas ruas de São Luis.  Para falar a verdade,  amei o Rio de Janeiro por contágio de pele e abertura de alma. Gostei do cheiro da terra, do povo carioca despachado, aberto, lírico, piadista, encantador! O Rio era tranquilo... Na época, os bandidos eram muito raros! Lembro-me do “Cara de cavalo” que assustava a família toda!

– Não chega tarde! O Cara de cavalo anda solto por aí!

Depois, apareceu a “Fera da Penha”, que matou a filhinha do amante por ciúme,  o caso de Aída Curi, a adolescente também mártir de uma gangue de "playboys"  e o crime do Sacopã, do Tenente Bandeira,  na Lagoa Rodrigo de Freitas. Os crimes eram raros e o povo não esquecia fácil. O “lugar de perdição” era a Barra da Tijuca: - Não vai com o namorado pra Barra da Tijuca, menina, hein? A Barra era famosa pelas meninas que “se perdiam” por lá... Muito pouco habitada.

Quando não ia  à praia por algum motivo, ficava assistindo  ao “ Programa do Guri”. Lá, declamava poesia, uma menina que não crescia nunca!  Ou então  “Almoço com as estrelas”,  que, com o aparecimento da TV preto e branco,  mostrava  Emilinha e Marlene, Ângela Maria e Dalva de Oliveira, Ivon Curi e Nora Ney e outros figurões da época. Eu era orgulhosa de ter sentado no colo da Marlene. E gostava de assistir aos filmes da Atlanta com  Oscarito, Grande Otelo, Eliane e Cyl Farney, dentre outros.

A turminha de crianças do Jardim Laranjeiras gostava de fazer apito das folhas de uma planta, cujo nome não me recordo, para chamar as demais para a brincadeira. O máximo da travessura, era apertar todos os botões dos elevadores, deixando os adultos indignados! Subíamos no mesmo elevador e ficávamos sonsamente, conferindo a fisionomia raivosa deles, espocando de rir.

Minhas tias fofocavam a respeito da  coluna social Ibrahim Sued . Apareceu o Denner, vestido de príncipe, e seus cães de raça pura e, por fim , o Clodovil.

Tinha a benção da primeira sexta feira na igreja dos Capuchinhos, onde minha tia beata, muito perto do altar,  tomou um banho de água benta. A Missa na Igreja Cristo Redentor, onde eu fazia parte da Cruzadinha. E os filmes em cinemascope -  uma das grandes novidades da época –  na Cinelândia. “Suplício de uma saudade”, “Candelabro Italiano.”

Depois,  já no final da adolescência, assisti à explosão musical dos anos dourados no Rio de Janeiro. Chico Buarque, Caetano, Bethania, Roberto Carlos, Nara Leão, Gil, Vinicius, etc A nata dos talentos musicais da MPB. Tudo isto ouvindo rádio (que se podia levar pra praia). Aquelas canções  coloriam  nossos flertes e namoros , fazendo acelerar os batimentos cardíacos , à beira do mar, embaixo do sol ou da lua.  Muitos verões foram embalados,  espreguiçados e sacudidos pelo estilo bossa nova, romântico e dramático daquelas canções. De Rita Lee a Maysa.

Aos vinte e dois anos, parti para Minas Gerais. Mas o Rio de Janeiro fez morada em meu coração e se foi por aí como vagalume acendendo e apagando lembranças.

Maria Fortuna

O presente de Dona Raimunda

ImageEm Breves, Ilha de Marajó, hospedo-me em casa de Dona Raimunda. Ao me verem chegar, crianças seminuas rodeiam-me de mansinho, curiosas. Retiro a mochila das costas e coloco-a no chão. Sem saber o que fazer, ante tão expectante e silenciosa platéia, abro uma das bolsas ao acaso. Mil olhos convergem, arregalados. Alguns minutos depois desfaço o impasse que se começava a criar: abro e esvazio todas as bolsas da mochila e convido-as a examinarem tudo o que transporto. Pelo canto do olho vejo-as passar de leve o indicador na máquina fotográfica, nos livros e em um ou outro objeto.

Mais tarde, com a intimidade estabelecida, elas cutucarão meus sinais, meu cabelo e inspecionarão meu corpo com dedos pequenos e ágeis.

No almoço, servem-me açaí com farinha e peixe frito, e Dona Raimunda querendo, segundo ela própria, saber das coisas do mundo, pergunta-me se as novelas de televisão são feitas no Rio ou em São Paulo.

Dou uma volta pelo lugarejo. Na igreja, o padre despeja água do rio sobre as cabeças de meia dúzia de crianças, que, aos gritos, assim são consideradas batizadas, enquanto, cá fora, meninos marchando com apitos e latas cobertas com plásticos, fazendo de tambor, imitam a parada de Sete de Setembro. Em uma lápide colocada com certo destaque no meio da praça, espanto-me com a precisão matemática dos seus dizeres: "... reconstruída 98% na administração de J.F.B.".

Volto ao anoitecer com um enorme cacho de bananas ao ombro. As crianças, pulando de alegria, depenam-no em segundos. Dona Raimunda havia colocado uma jarra com flores plásticas no meu quarto e, pela janela, me aponta a banheira no fundo do quintal, onde poderei tomar banho de cuia.

dias mais tarde, na despedida, ela me ofereceu três sementes de açaí.

– Pró Senhor plantar lá na sua terra! – disse, com olhos brilhantes.

Guardo-as comigo até hoje. Talvez um dia, quem sabe, eu encontre minha terra.

Pedro Veludo

1938, Casa 14, Vila Hilda

Imageando só pelas ruas e isso me dá uma grande tristeza
não encontro nenhum amigo esta cidade está deserta
e no entanto as pessoas me empurram dá licença
outros dizem que merda sai dai bestalhão
quero sair pra onde mas não encontro a saída
há uma duas três hiroximas me queimando por dentro
estou explodido e roubado não sei pra onde me levam

esta fila é uma fila cachorra que não anda
estou farto de concursos e testes
a mesma vida porca de toda repartição
o mesmo colarinho apertado aproveitado de meu pai
a mesma gravata ensebada caída cafajeste
estou gordo e sem classe em meus vinte e dois anos
será que um dia me tratarão de doutor?

que estou fazendo nesta cidade neste mundo?
não pedi para nascer minha mãe fez um escarcéu porque disse isso
e agora josé poijque caí na asneira de ofender minha mãe?

fiquei sem mãe há um cacetão de tempo
mas seu olho de água me vigia

neste mundo de safadões e gente ordinária
só posso brincar com a delfina a tininha e poucos mais

invento países imaginários ganho e perco batalhas
desenho histórias em quadrinhos com garranchos e bonecos
armo estratégias com soldadinhos de chumbo de cabeça quebrada
os caminhões são caixas vazias de sabonete dorly
há batalhões de papel de embrulho verde e rosa

estou militarizado enquanto a europa se rearma

Reynaldo Valinho Álvarez

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