João do Rio - Revista Internética

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A voz anônima das ruas

Ano 8 - Edição número 44
Agosto / Setembro de 2010


Diretores: Gilson Nazareth
              Márcio Salgado


Programação Visual: Massanobu Endo

Equipe: Benedita Azevedo
           Joana D'arc






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Colaboradores:
Diorindo Lopes
Domi Chirongo
Geraldo Lino
Luiz Antonio de Almeida
Rita Maria Felix da Silva
Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Toni Marins

 

 

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Ano 7 - Número 41
Fevereiro / Março de 2010

AGORA BASTA

Já tiramos todas as cartas da manga, agora basta!

Hora de restabelecer a dignidade do ser humano

Como temos enfatizado repetidamente, a crise sistêmica global em curso tem afetado praticamente todos os aspectos das atividades humanas. Se quisermos defini-la em uma sentença, podemos afirmar que se trata de uma autêntica crise civilizatória, marcada por um agudo processo de "desumanização" da Humanidade, cuja característica é a retirada do ser humano do centro da própria organização da sociedade e sua dinâmica econômica. Em troca, vemo-nos diante de formulações ideológicas desvinculadas de um processo coerente de entendimento das leis universais e orientadas para a centralização de entidades abstratas artificialmente dotadas de uma natureza e direito próprios, como os "mercados" e o "meio ambiente" – este último, sendo considerado como eminentemente dissociado da ação transformadora da Humanidade.

Assim, a prevalência do liberalismo econômico e sua variante "globalista", além do malthusianismo e seu avatar ambientalista, na determinação das relações de organização produtiva entre indivíduos e sociedades e entre o homem e a natureza, representam um séria ameaça a qualquer perspectiva de prosseguimento do progresso humano e a sua extensão a todos os povos e países do mundo. Em particular, esses aspectos da crise ficaram evidenciados no festival de irracionalidades que foi a 15a Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), em Copenhague, convocada para discutir o estabelecimento de uma insana agenda restritiva do uso de combustíveis fósseis, cuja consequência concreta seria um virtual congelamento do desenvolvimento socioeconômico mundial em sua condição atual de extrema desigualdade, tanto entre os países como dentro deles.

Tais enfoques resultam de uma imagem do homem eminentemente materialista e egocêntrica e destituída de qualquer função transcendente, como se a vida humana se limitasse a cumprir um mero ciclo biológico que pouco difere do dos demais seres vivos, facilitado pelas conquistas materiais proporcionadas pelo progresso científico e tecnológico. No campo econômico, o homem é visto como pouco mais que um consumidor de recursos "escassos", cuja distribuição seria melhor proporcionada por essa entidade etérea denominada "mercado". Nas relações com a natureza, o ser humano seria apenas uma a mais entre as milhões de espécies da biosfera, devendo o seu progresso manter-se restrito pelas exigências de "conservação" desta última.

Por isso, foi extremamente oportuna a advertência do papa Bento XVI, feita durante o evento, ao afirmar que "os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros".

Da mesma forma, é alvissareiro que o aquecimento global antropogênico, motivação da conferência de Copenhague, esteja sendo crescentemente desqualificado como uma falácia científica e uma farsa político-econômica. A sua desmoralização, simultânea com a da ilusória onisciência dos "mercados" na organização econômica, representa uma oportunidade singular para que os esforços de superação da crise global sejam orientados por novos conceitos que atendam aos requisitos de recolocação da dignidade humana ao posto que lhe cabe na evolução da Civilização.

In – Msia – Movimento de Solidariedade Ibero-americana
Dezembro de 2009, Vol. XVI, nº 13

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