João do Rio - Revista Internética

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A voz anônima das ruas

Ano 8 - Edição número 44
Agosto / Setembro de 2010


Diretores: Gilson Nazareth
              Márcio Salgado


Programação Visual: Massanobu Endo

Equipe: Benedita Azevedo
           Joana D'arc






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Colaboradores:
Diorindo Lopes
Domi Chirongo
Geraldo Lino
Luiz Antonio de Almeida
Rita Maria Felix da Silva
Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Toni Marins

 

 

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Ano 7 - Número 41
Fevereiro / Março de 2010

MINICRÔNICA

O vendedor de cocos

Acho que eu ainda não tinha nove anos quando meu pai falou que estavam armando um circo perto de casa e que eu deveria dar uma espiada.  "Parece que tem uns macacos treinados, tente aprender alguma coisa com eles...", recomendou.

Creio que fui o último a chegar.  A molecada inteira da minha rua estava lá, e a de outras também.  Até o Marquinhos, que morava do outro lado da linha do trem e nessa época ainda tinha cabelos pretos; não os ralos fios brancos de hoje, que ficam rosados quando o sangue lhe sobe à cabeça.  Estava provocando um chimpanzé, eu nunca tinha visto um.

Ficava imitando o bicho e fazendo uns barulhos que acreditava parecido com o linguajar.  Atrás das grades, o animal apenas olhava e coçava a cabeça.  Até que deu um berro e o tratador do circo nos expulsou.

– Já viu o elefante? - ele me perguntou.

Não, também nunca tinha visto um e ele me puxou.  Outros meninos cercavam o trombudo cinza, encantados com tanto tamanho e passividade.  "Nem tiro atravessa essa carcaça", Marquinhos me fez tocar a pele áspera do elefante - que nem nos notou.

– Já viu o cocô dele?

Parecia um coco seco que meu pai comprava para minha mãe ralar e fazer queijadinha, ambrosia que o levava a salivar os beiços.  Antes de quebrá-lo na marreta, fazia um furo com um prego e tirava a água para eu beber.  Era gostosa, embora parecesse só água.

Marquinhos arrastava uma caixa de uvas vazia, pediu-me para segurá-la enquanto cutucava uma montanha de cocos secos - na verdade, um monte de cocô do elefante, que nem foi perguntado se podíamos.  Separou uns seis, falou que ia assustar a irmã. 

No caminho para casa, encontrou a diretora da escola e ela lhe deu uns trocados pelos cocos.  Ia usar como esterco.  Marquinhos voou para casa, emprestou um carrinho de feira da mãe.  Por uns dias, encheu as burras oferecendo os cocos de porta em porta. 

– Falava que se o bicho que tinha feito aqueles cocos era daquele tamanhão todo, imaginassem como cresceriam suas plantas...  Fácil!

Vendia cada coco a um cruzeiro, cada viagem lhe rendia uns trinta e fazia oito ou dez por dia.

Podia ter juntado para comprar uma bicicleta, o circo ia ficar na cidade mais duas semanas, mas um japonês começou a comprar os cocos para fertilizar sua plantação de melancias. 

– A vida é assim: o pequeno não pode engordar que vem o grande e engole - comentou outro dia, quase quarenta anos passados.

Não deu para a sonhada bicicleta, mas o pai inteirou e Marquinhos comprou um patinete.  Brinquedo que só pode estrear depois que a mãe se deu por satisfeita com uma minuciosa limpeza para dar fim ao fedor de cocos do carrinho de feira.


Diorindo Lopes Júnior
diorindo@uol.com.br
Jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).

Comentários
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graça graúna     |2010-06-07 09:25:14
Parabens ao jornalista Diorindo pela crônica tecida de comicidade e pela grandeza das suas recordações de infancia. Saudações literárias.
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