João do Rio - Revista Internética

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A voz anônima das ruas

Ano 8 - Edição número 44
Agosto / Setembro de 2010


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Equipe: Benedita Azevedo
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Colaboradores:
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Ano 7 - Número 41
Fevereiro / Março de 2010

COMENTÁRIO POLÍTICO

Lula e seus irmãos cubanos

A morte do preso político cubano Orlando Zapata Tamayo, em prolongada greve de fome que durou 82 dias, em defesa dos direitos humanos, expôs ao mundo mais uma vez a política ditatorial da Ilha, e pôs em xeque o prestígio internacional do presidente Lula, que então visitava o país. Seria uma dramática coincidência, que a posição evasiva do presidente só fez piorar. Lula afirmou: “Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome.”

Esperava-se do presidente uma explícita condenação ao arbítrio, mas ele não o fez, preferindo o silêncio. O jornal espanhol “El País” criticou em editorial a sua postura: “A ida a Havana foi uma chance perdida de mostrar que é possível uma opção de esquerda capaz de oferecer progresso e bem-estar pelo fortalecimento da democracia. O trato com Havana e o mito que a revolução castrista representa para partes da esquerda latina colocam todos os dirigentes da região numa situação difícil, principalmente o presidente brasileiro.”

É curioso observar que há dois meses o governo Lula apresentou o “Programa Nacional de Direitos Humanos”, que tanta discussão suscitou nos meios políticos, militares, e na mídia. O plano trata da revisão da Lei de Anistia, da reintegração de posse em propriedades privadas, da criação de uma comissão para monitorar o conteúdo editorial das empresas de comunicação, dentre outros temas. As mudanças na legislação propostas no programa não têm força de lei, e para tanto devem ser submetidas ao Congresso Nacional. 

A reação mais veemente ao programa surgiu no próprio governo, sendo que os comandantes das Forças Armadas ameaçaram pedir demissão conjunta ao presidente Lula. Os militares não querem a criação de uma “comissão da verdade” que teria a função de investigar os crimes cometidos durante a ditadura no período de 1964 a 1985. Eles alegam que o plano não prevê a investigação de excessos por grupos de esquerda que combateram o regime.

Vê-se agora que o presidente Lula trabalha com dois pesos e duas medidas. No país de Fidel, ele esqueceu a questão dos direitos humanos num momento dramático, e posou hilariante com os seus anfitriões, os donos do poder.

A política não é propriamente o que se pode chamar de a arte da inocência, mas deve haver limites no trato com o poder a fim de aperfeiçoar os sistemas. Há sempre uma encruzilhada entre os anseios individuais e a ordem estabelecida. E o poder de um Estado que não se pauta pelas regras da democracia tende ao absolutismo, e a promover a destruição das liberdades individuais. As circunstâncias da morte do prisioneiro cubano confirmam isso. Ele não cometeu nenhum delito, a não ser o perigoso “crime de consciência" ou "de opinião”

*****

Immanuel Kant afirmou: “Não obstante a máxima: a honestidade é a melhor política, implique uma teoria  que a prática infelizmente desmente muitas vezes, todavia a máxima igualmente teorética a honestidade é melhor do que qualquer política, está acima de toda objeção, é antes a condição indispensável da política.”


Marcio Salgado
Escritor
marciojsalgado@gmail.com

Comentários
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Toni Marins   |2010-03-01 03:29:47
Prezado mestre:

- Bingo!

Abraço do TM
Marcio Salgado Lima   |2010-03-22 09:19:00
Muito apropriados seus comentários a respeito do presidente Lula. A política internacional de seu governo, um desastre, orientada que é, essencialmente, por indivíduos declaradamente anti-americanos, deixa claro um sentimento de inveja que os Estados Unidos da América provocam naqueles que são incapazes de criar progresso por suas próprias mãos. São pessoas que, por falta de cultura e até mesmo de razoável nível de instrução, pararam no tempo, ainda vivem como se estivessem no final do século XIX. Imaginar que o Brasil possa, através dos atuais governantes, assumir posição de destaque na política mundial é um equívoco, principalmente por aliar-se a governantes comprovadamente atrasados em suas concepções políticas, como Fidel, Chavez, Morales e outros assemelhados "líderes
latino-americanos" de momento. Felizmente, estamos na reta final deste governo, como espero.
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