João do Rio - Revista Internética

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A voz anônima das ruas

Ano 8 - Edição número 44
Agosto / Setembro de 2010


Diretores: Gilson Nazareth
              Márcio Salgado


Programação Visual: Massanobu Endo

Equipe: Benedita Azevedo
           Joana D'arc






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Colaboradores:
Diorindo Lopes
Domi Chirongo
Geraldo Lino
Luiz Antonio de Almeida
Rita Maria Felix da Silva
Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Toni Marins

 

 

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Ano 7 - Número 41
Fevereiro / Março de 2010

HAICAI

O Haicai

O mais antigo haicai (haiku) que se conhece é o de autoria do poeta Fugiwara-Sadaye (1162 – 1242), que viveu no tempo do Imperador Dotoba (1180 – 1239), cujo texto é o seguinte:

Espalhadas flores
Quer pegar e pega apenas
O vento de chuva.
 
No século XVII, Bashô, um poeta boêmio, fez escola e consolidou o haicai, essa poesia essencialmente sintética, muito popular no Japão. A composição do haicai, como é praticada hoje, é resultante do “haikai do renga” (ou tanka) muito usada antes de Bashô. Era um poema coletivo, em que um poeta compunha a primeira estrofe (hokku), um terceto com  (5-7-5) sílabas ou sons.  E em seguida outro poeta compunha a segunda estrofe, um dístico de (7-7) sílabas ou sons. E assim, sucessivamente. Levavam anos para completar o poema. Bashô era adepto do “kazen”, poema encadeado de apenas 36 estrofes “haikai do renga”.

O haiku é chamado no Brasil de haicai.
O haicai é uma poesia de estação, ou saisonnière.  Tem que se limitar a impressões efêmeras do momento que passa. Está ligado às quatro estações do ano e se inspira nos elementos da natureza em cada uma dessas fases. Os motivos de estação são a razão de ser da poética do haicai.

O haicai chegou ao Brasil junto com os primeiros imigrantes, Shuhei Uetska (1876 – 1935), encarregado de conduzir os 793 compatriotas, pelo hoje histórico navio, Kasato Maru, que ancorou no Porto de Santos em 18 de junho de 1908, compôs o primeiro haicai em solo brasileiro, logo ao desembarcar.

A nau imigrante
Chegando: vê-se lá no alto
A cascata seca.

Entretanto, as obras que devem ser consideradas como marco inicial do haicai no Brasil são:

1. Trovas populares brasileiras (1919), de Afrânio Peixoto.
2. Relance da Alma japonesa (1926) de Wenceslau  de Morais.

Mas o primeiro livro exclusivamente de haicais é de Waldomiro Siqueira Júnior, Hai-Kais (1933). Guilherme de Almeida começou a escrever haicais em 1936. Em 1937 publicou o artigo “Os meus haicais”, onde apresenta sua versão do que seria o haicai em português. Um terceto com (5-7-5) sílabas, com título de maneira que o primeiro rima com o terceiro e a segunda sílaba do segundo verso com a sétima, resolvendo a seu modo, o problema da sonoridade do haicai.
Seus haicais foram publicados no livro, Poesia vária, de 1947. Veja um de seus haicais:

Infância

Um gosto de amora 
Comida com sol. A vida
Chama-se  “Agora”.

Guilherme de Almeida

Goga Masuda, com quem tive o privilégio de participar de duas oficinas é o autor dos “Dez andamentos do Haicai”, “foi haicaísta e estudioso do haicai, compondo tanto em português como em japonês. Seguidor de Nempuku Sato, mestre já falecido e responsável pela divulgação do haicai entre os imigrantes japoneses no Brasil. Membro fundador do Grêmio Haicai Ipê. Em agosto de 1993, liderou a fundação do Grêmio Haicai Caleidoscópio, tendo em vista o estudo e a composição de haicais encadeados (renku). Contemporâneo de  Jorge Fonseca Júnior e Guilherme de Almeida, com quem trocava idéias sobre a composição do haicai, tomando como exemplo o modelo japonês. No Japão, foi associado à revista "Yuki", de orientação tradicional, editada por Kôka Muramatsu. Em 2004, recebeu o "Masaoka Shiki International Haiku Prize", por seu esforço na divulgação do haicai. Também foi pintor”. Nasceu  em 08 de agosto de 1911, no Japão e faleceu em 28 de maio de 2008, em São Paulo. (Fonte: www.kakinet.com)

OS DEZ MANDAMENTOS DO HAICAI
Goga Masuda

I – O Haicai é poema conciso, formado de 17 sílabas, ou melhor, sons, distribuídas em três versos (5-7-5), sem rima nem título e com o termo-de-estação do ano (kigô).

II – O kigô é a palavra que representa uma das quatro estações, primavera, verão, outono e inverno; p. ex., IPÊ (flor de primavera), CALOR (fenômeno ambiental de verão), LIBÉLULA (inseto de outono) e FESTA JUNINA (evento de inverno).

III – Cada estação do ano tem o próprio caráter, do ponto de vista da sensibilidade do poeta; p. ex., Primavera (alegria), Verão (vivacidade), Outono (melancolia) e inverno (tranqüilidade).

IV – O haicai é poema que expressa fielmente a sensibilidade do autor. Por isso,

- respeitar a simplicidade;
- evitar o "enfeite" de "termos poéticos";
- captar um instante em seu núcleo de eternidade, ou melhor, um momento de transitoriedade;
- evitar o raciocínio.

V – A métrica ideal do haicai é a seguinte: 5 sílabas no primeiro verso, 7 no segundo e 5 no terceiro; mas não há exigência rigorosa, obedecida a regra de não ultrapassar 17 sílabas ao todo, e também não muito menos que isso. E a contagem das sílabas termina sempre na sílaba tônica da última palavra de cada verso.

VI – O haicai é poemeto popular; por isso usa-se palavras quotidianas e de fácil compreensão.

VII – O dono do haicai é o próprio autor; por isso, deve-se evitar imitação de qualquer forma, procurando sempre a verdade do espírito haicaísta, que exige consciência e realidade.

VIII – O haicaísta atento capta a instantaneidade, qual apertar o botão da câmera.

IX – O haicai é considerado como uma espécie de diálogo entre autor e apreciador; por isso, não se deve explicar tudo por tudo. A emoção ou a sensação sentida pelo autor deve apenas sugerida, a fim de permitir ao leitor o re-acontecer dessa emoção, para que ele possa concluir, à sua maneira, o poema assim apresentado. Em outras palavras, o haicai não deve ser um poema discursivo e acabado.

X – O haicai é um produto de imaginação emanada da sensibilidade do haicaísta; por isso, deve-se evitar expressões de causalidade, sentimentalismo vazio ou pieguice.
(fonte:www.kakinet.com)

HAICAIS  DE  OUTONO

Lua desta noite.        
Sob a janela do quarto
canta o seresteiro.

Domingo de Ramos.
Fiéis agitam as palmas
sob a chuva fina.

Bombons coloridos
na cesta de chocolate –
Prenúncio de Páscoa.

Um raio de sol
após a chuva de outono...
Pássaro se sacode.

Nas águas do rio
a paisagem refletida –  
Cores do outono.

Tarde de outono –
No pátio entre os marrecos
o ancião caminha.

Benedita Azevedo

Comentários
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Clarice Villac  - Parabéns !     |2010-04-21 18:12:22
Benedita Azevedo,

obrigada pelo artigo esclarecedor,
com certeza servirá de orientação a muita gente interessada em compreender melhor as particularidades do Haicai !

É sempre agradável e inspirador ler e apreciar seus haicais !

:~)
Se-Gyn  - Parabéns, querida aijin!   |2010-04-24 15:40:03
É sempre bom,encntrar alguém propagando a arte dessa jóia chamada haicai. E é melhor ainda quando se trata de alguém que vive com intensidade, a arte de elaborar hacais. No caso de Benedita Azevedo, sua arte e presença se confunde até com a história do desenvolvimento no haicai no Brasil, nos últimos tempos.
Tive a grata oportunidade de ler suas elaborações no Recanto das Letras. Que experiência fantástica! Sempre nos chama de volta, pela delicadeza de cada um dos haicais publicados.
Parabéns Benedita e...
Sucesso nessa nova empreitada!
Iraí Verdan  - Parabéns, Benedita Azevedo,     |2010-05-03 13:46:55


Mais um espaço que se completa com o trabalho magnífico da grande poetisa do haicai e de tantas formas da escrita,a escritora Profª Benedita de Azevedo. Lí o seu texto sobre o Haicai, muito bom por sinal, e sou leitora dos seus demais trabalhos, divulgados em diversos livros e sites. Certamente que serei leitora nesse espaço,onde o Haicai, através de Benedita está e estará sendo divulgado.João do Rio espaço de Cultura, está de parabéns em nome de toda a sua equipe.
Um abraço
Iraí Verdan
anelin   |2010-05-18 18:21:50
eu adorei os seus haicais achei muito legais,demais. beijos.ate mais tchau
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