Revista Internética
João do Rio

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"A voz anônima das ruas"

Ano 11 - Edição número 62
Fevereiro / Março de 2014

Diretores:
Gilson Nazareth
Márcio Salgado


Programação Visual:
Massanobu Endo


Equipe:
Benedita Azevedo
Joana D'arc

 

Colaboradores e
Articulistas
:


Cid Martinho
Diorindo Lopes
Domi Chirongo
Eraldo Motta
Eusébio Sanjane
Geraldo Lino
Kiko Nazareth
Lígia Saavedra
Luiz Antonio de Almeida
Rita Maria Felix da Silva
Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Sérgio Fonta

 

 

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Ano 7 - Número 41
Fevereiro / Março de 2010

FILOSOFIAS

 

Sobre a experiência estética

Há muitas maneiras de se definir a estética; entre elas, afirmar que é o ramo da filosofia que se ocupa das questões acerca da beleza e das artes. Esta sucinta definição indica o seu grau de complexidade, pois aí encontram-se inseridos os conceitos de filosofia, beleza e artes, que possuem ricas significações.

A finalidade de uma obra de arte é a percepção, pois somente neste processo ela transforma-se em objeto estético. Este não é propriamente uma coisa, como tantas outras que estão no mundo à nossa volta, o que significa dizer que a experiência estética possui uma natureza própria, e não é a apreensão da objetividade do objeto.

Immanuel Kant (1724-1804) percebeu bem esta questão e deslocou a noção de beleza que então se imaginava no objeto para a subjetividade do contemplador, na circunstância em que este se encontra no ato da experiência.

Embora a estética trate também do belo natural, ela é aceita hoje como filosofia da arte. Kant observou que a natureza é bela quando tem o aspecto da arte, e a arte só pode ser chamada bela quando tivermos consciência de que é arte, mesmo que ofereça a aparência da natureza. Sendo assim, a beleza na natureza aparece também como uma construção do espírito humano.

O conceito de beleza possui múltiplas significações. Um dos pioneiros no tratamento da estética como disciplina filosófica, Alexander Baumgarten (1714-1762) a definiu como o conhecimento da perfeição sensível. A depender do ponto de vista, a beleza pode ter um caráter objetivo, e, supostamente, residir no objeto; ou subjetivo, se é vista como o produto da interação do contemplador com o objeto artístico.

De toda forma, em seu aspecto fenomênico, o objeto estético não é aparência ilusória. Ele convida o espectador a descortinar a sua verdade. No caso da ilusão, atribui-se ao fenômeno uma realidade que este não possui. Já a verdade que o espectador encontra no objeto estético é incontestável.

Entre os contemporâneos, o fazer artístico passou por mudanças radicais, o que sugere o estabelecimento de novas práticas, ou novas formas de ver, ouvir, contemplar. A estética apóia-se na arte, sendo natural o surgimento de novos campos teóricos. Disso decorre o interesse relativo aos estudos da Experiência Estética. Por que ficar aprisionado à noção de beleza artística, numa época em que esta deixou de justificar a existência de uma obra de arte?

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Perceber é conhecer através dos sentidos, o que implica na proximidade do objeto. Não se percebe o que encontra-se fora do alcance espacial ou temporal, embora seja possível imaginar ou pensar essas coisas. Quem percebe, o faz sempre de algum lugar, e o seu raio de ação é limitado. Diferente das sensações, que são imponderáveis, a percepção atua sobre esses dados sensoriais e produz as formas.

É possível descrever a percepção estética como o processo que resulta do encontro entre o contemplador e o objeto artístico numa circunstância determinada. A contemplação de uma pintura, a audição de um concerto, a leitura de um poema, ou a observação de um cenário natural podem suscitar experiências estéticas. O objeto a que nos referimos é real e sensitivo, sem outra finalidade que não seja a sua própria fruição. Como advertiu Kant, o prazer que ele proporciona é desinteressado. Contudo, este conceito pode proporcionar certa confusão. Na verdade, o contemplador percebe a forma do objeto, sem atentar para a sua finalidade. O mesmo não acontece, por exemplo, com um especialista ou um mercador de artes, pois estes vão deter-se sobretudo em seu status institucional ou em seu valor de mercado.

Assim como existe a experiência estética do contemplador há também a do criador. Nesta predomina a força da intuição sensível. Kant, com muito propósito se perguntou como acontece de nosso entendimento se relacionar com este outro que é a intuição sensível. Para o filósofo, Entendimento é a faculdade de julgar, já a Intuição consiste num conhecimento intelectual e direto das coisas em si. Pela sua singular natureza de ser racional e sensível, o homem encontra-se ligado tanto ao mundo dos fenômenos como ao mundo sensível.

Pensador da razão, Kant desvestiu o mundo das coisas ao afirmar que não é possível conhece-las em si mesmas, pois a subjetividade humana as modifica. E adiantou que o espaço e o tempo são intuições sensíveis a priori; não são categorias independentes do sujeito.

As teorias kantianas sobre o belo e o sublime, no século XVIII, marcaram um divisor de águas nas abordagens da estética. Os seus principais conceitos são reavaliados dentro de uma nova perspectiva, onde o objeto artístico perde a sua supremacia como centro das análises. Para o filósofo, a questão de saber se uma coisa é bela não está relacionada propriamente á sua existência, mas ao modo como o contemplador ajuíza essas coisas.

A questão do belo na arte é bastante controversa. Algumas obras-primas da pintura não são de forma alguma consideradas belas, outras o são, inegavelmente. A própria noção de beleza muda com o passar do tempo. Platão concebeu uma Beleza Absoluta, que só existia no mundo das essências puras; enquanto esta que reside no mundo natural ou nos objetos artísticos nada mais seria do que uma cópia da beleza essencial.

A relação que o contemplador mantém com os objetos artísticos varia sobremaneira. Alguns buscam a pura diversão, outros, o prazer dos sentidos que a arte propicia. Há ainda os que preferem as obras que problematizam as questões sociais, políticas ou existenciais. Enfim, há obras para todos os gostos, e essas não foram criadas com os mesmos objetivos.

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Lygia Pape, Ttéia. Bienal de Veneza, 2009
Lygia Pape, Ttéia. Bienal de Veneza, 2009
Eis alguns exemplos, em campos distintos da criação artística: na literatura, no cinema, nas artes plásticas:

Uma criação literária, como o romance moderno,  pode divertir, educar, problematizar o mundo. É consenso afirmar que o romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos (1892-1953) é uma obra-prima da literatura brasileira. A sua leitura proporciona grande prazer, sobretudo aos que apreciam o seu estilo narrativo, mas, ao que tudo indica,  o seu autor não pretendeu divertir os leitores. A “estética da seca” aguça os sentidos e desperta os sentimentos mais humanos.

Diante das circunstâncias dramáticas vividas por Fabiano e  toda a sua família, ninguém esquecerá da cadela Baleia. O autor reúne todos os elementos – homem, terra, bicho, fome, natureza – numa narrativa circular, onde se mesclam à tensão das relações sociais, um sentimento recôndito de compaixão.

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O Cinema Novo brasileiro teve como slogan: “uma câmera na mão, uma idéia na cabeça.” Uma das obras emblemáticas deste movimento é “Deus e o diabo na terra do sol”, de Glauber Rocha (1939-1981). O longa-metragem é de 1964, e conta a história do vaqueiro Manuel e sua mulher Rosa nas duras terras do sertão. Após assassinar o patrão, Manuel, fugindo da morte, encontra o beato Sebastião e depois Corisco. Segundo o diretor, “a origem de ‘Deus e o diabo...’ é uma língua metafórica, a literatura de cordel.”

Glauber protestava “contra a ditadura estética e comercial do cinema americano, contra a mentalidade conservadora dos críticos e a favor do público...” Não afirmo que o grande público se interessou pelos seus filmes, pois estes não eram de fácil recepção, mas é verdade que ele propôs uma nova estética cinematográfica.

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A Bienal de Veneza homenageou em 2009 o talento da artista plástica brasileira Lygia Pape (1927-2004). A sua obra "Ttéia" foi exposta à entrada da Bienal, que neste ano adotou o sugestivo título: “Criar Mundos”, e reúne diferentes linguagens da arte, como desenho, pintura, escultura e instalação.

Trata-se de uma instalação ambientada em espaço escuro, feita com fios de ouro iluminados por spots presos ao teto, que se transformam em feixes de luz.

As instalações são objetos artísticos que, não raro, promovem muitas discussões no seio das artes plásticas.

Nem todas as obras são belas, mesmo porque há obras-primas que pretendem alcançar o seu público por outros meios que não o sentido do belo. No universo infinito da criação, as possibilidades estéticas também são inumeráveis. E diante delas, o leitor atento da obra literária, o espectador na sala escura do cinema e o contemplador de uma tela ou outro objeto artístico, todos vivem uma Experiência Estética.


Marcio Salgado
Escritor
marciojsalgado@gmail.com

Comentários
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Anônimo   |2010-12-11 12:37:35
:evil: :kiss: :woohoo:
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