João do Rio - Revista Internética

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A voz anônima das ruas

Ano 8 - Edição número 44
Agosto / Setembro de 2010


Diretores: Gilson Nazareth
              Márcio Salgado


Programação Visual: Massanobu Endo

Equipe: Benedita Azevedo
           Joana D'arc






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Colaboradores:
Diorindo Lopes
Domi Chirongo
Geraldo Lino
Luiz Antonio de Almeida
Rita Maria Felix da Silva
Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Toni Marins

 

 

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Ano 7 - Número 41
Fevereiro / Março de 2010

NOS TRILHOS DA CULTURA

“Onde a cultura da periferia é a passageira principal”


Começamos nossa viagem com o teatro:

Entrevista com Marco Accioli, diretor teatral e fundador do "Grupo Zona Norte"

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A coluna "Nos Trilhos da Cultura" estréia seu espaço na Revista João do Rio. Após dois anos e meio de colaboração tratando de temas culturais e em sua maioria, mas não só, ligados à periferia do Rio de Janeiro (área de onde sou cria e com muito orgulho, vide o documentário "Alma Suburbana") surge a idéia de tratar de forma mais direta e especifica da área. Para isso conto não apenas com o trabalho de apuração, mas com sugestões do leitor, portanto estejam à vontade para criticar, comentar e sugerir através do email que consta na assinatura da matéria.

Abrimos os trabalhos, ou melhor os panos, com o diretor de teatro Marcos Accioli, morador de Olaria. Formado pela Escolha de Teatro Martins Penna e com pelo menos uma década de experiência no teatro, fala sobre a importância do teatro na formação individual e rebate a idéia de que a periferia não gosta de cultura , pois como todos sabemos, a periferia não quer só comida, quer diversão e arte também, qualquer referencia a musica "Comida "(Marcelo Fromer / Arnaldo Antunes / Sérgio Britto) não é mera coincidência. Eis a íntegra da entrevista.

João do Rio – Fale sobre sua trajetória e formação no teatro:

Marco Accioli – Comecei, fazendo curso livre de teatro com o Palhaço Palito (personagem do ator Binha de Souza). Eu o conheci  em  meados de 80, fazia pré  vestibular em Bonsucesso e tomei conhecimento  do curso de teatro que ele  coordenava  no colégio NABE. Foi a primeira vez que tive  contato com teatro e fiquei fascinado.Fiz o curso livre,participei da montagem do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, foi um trabalho inesquecível. Dessa turma saiu  muita gente boa para o teatro ,como o Paulo Giannini, atual diretor e professor do Grupo Nós do Morro; Paulo Reis e muitos outros. Em 1995,  formei-me  na   Escola de Teatro Martins Penna .Desde  de então nunca mais parei.

João do Rio – Quais as montagens mais importantes da sua carreira?

Marco Accioli – Todo trabalho é importante, pois contribui para o nosso aprendizado e amadurecimento profissional. Duas peças marcantes em minha vida,foram: Maria minhoca, de Maria  Clara Machado e Senhora dos Afogados de Nelson Rodrigues. Agradaram enormemente ao publico e foi um prazer imenso, pois atuei e dirigi com muito gosto.
 
João do Rio – Prefere atuar ou dirigir? Por quê?

Marco Accioli – As duas funções dão um enorme prazer. O diretor de teatro é uma espécie de regente ,  precisa harmonizar o grupo, tornar  o trabalho orgânico, coeso e dar um acabamento artístico. O mais satisfatório possível, sem dúvida é atuar,  é muito mais prazeroso ,é uma forma especial de libertação, de grito, é algo mágico , transcendental. Atuar purifica a alma põe-se pra fora todos os “monstrinhos” e demônios interiores.
 
João do Rio- Qual texto você gostaria de montar um dia?

Marco Accioli – Gostaria de montar algo do saudoso  Plínio Marcos,"bendito maldito", como: Abajur lilás, Navalha na carne, Dois perdidos numa noite suja, entre outras.
 
João do Rio – Qual a importância do teatro na formação cultural do individuo?

Marco Accioli – É de vital importância.  O teatro é o espelho da sociedade, a faz refletir,questionar,duvidar, suscita polemica e derruba barreiras, é por isso que nos regimes ditatoriais muitas peças foram proibidas de serem encenadas e seus autores foram presos, mortos e perseguidos.É  revolucionário, torna a pessoa mais crítica da sociedade, é libertador.
 
João do Rio – Qual a sua posição em relação à dificuldade de acesso ao teatro na Leopoldina?

Marco Accioli – Essa questão é educacional, cultural, econômica e política também. Enquanto o povo estiver atrelado, a uma política nefasta, mesquinha e lacaia , servindo de lobby aos interesses de uma elite que tem ojeriza ao povo, esta situação  jamais vai se reverter  a seu favor. Isto só vai mudar quando o povo entender que a mudança precisa ser feita de baixo  pra cima, cada cidadão da periferia precisa fazer valer seus direitos de uma vida digna  com acesso a arte, cultura e lazer.
 
João do Rio – Como isso poderia ser resolvido: com mais teatros, ingressos mais baratos, ou de que outra forma? Tem alguma sugestão?

Marco Accioli – Tem de se começar um trabalho de base na escola. Teatro deveria constar como matéria, nas salas de aulas. Como falei anteriormente ,o povo da zona norte  precisa fazer valer seu direitos: cobrar dos políticos para que haja teatro nessa localidade; não só casas de espetáculo, mas escolas de artes cênicas;  centros culturais. Tem de haver uma participação efetiva da população, que infelizmente também tem sua parcela de culpa, há muito conformismo e resignação da população. A cultura da zona norte hoje está restrita ao pagode romântico  e ao funk.  
 

João do Rio – Há quem diga que não há interesse por teatro na periferia, o que pensa a respeito?

Marco Accioli – Infelizmente   o povo está alijado de todo processo cultural. Isto se reflete em quase todas as áreas artísticas, não somente no teatro, mas na música, dança, artes plásticas, cinema, literatura. Quase não existem  bibliotecas nos subúrbios, até os campos de peladas onde surgiam verdadeiros craques , hoje em dia, já não se encontram mais. O povo é visto apenas como um mero consumidor passivo das industria cultural, a lhe impor modismos e hábitos. Em contrapartida proliferam igrejas. 
 
 João do Rio – Você criou o grupo de teatro zona norte, há quanto tempo? Fale sobre a origem, a trajetoria e a importância dele para a região. Quais as atividades do zn?

Marco Accioli – O nosso grupo zona norte foi criado por mim em  maio de 2009. Em setembro, montamos nossa primeira peça  A bruxinha que era boa,  de Maria Clara Machado, no teatro Dercy Gonçalves, que fica no Grajaú, Zona Oeste da cidade. As pessoas que integram o grupo são de bairros diversos, o grupo atende a todas as  faixas etárias: crianças , jovens e adultos e ate terceira idade.A  minha proposta como diretor e coordenador  é tornar nosso grupo um referencial teatral na zona norte, mostrando a todos que aqui também se pensa, discute e produz teatro com qualidade e aprimoramento estético.
 
João do Rio – Conte sobre os planos e projetos para 2010

Marco Accioli – Em março, começaremos uma serie de trabalhos,baseados na obra de Nelson Rodrigues. Já na primeira semana , faremos a leitura dramatizada da peça Beijo no asfalto. Logo depois, trabalharemos em cima das crônicas A vida como ela é para teatralizá-las .Em   maio, estréia no teatro Henriqueta Brieba, no Tijuca Tênis Clube,  a peça infantil  Ratimbum!  Pararatimbum!  Em setembro, a comedia adulta  Cada um se vira como pode, e   em novembro, Vampirildo, a historia de um  vampiro. Todas de Paulo Sacaldassi e em terras tijucanas. Acho que 2010  e um ano de muito trabalho para o nosso grupo e breve estaremos fazendo nosso teatro de rua  com a peça   " Você não vota em quem ?”  escrita por mim.
Estamos com as inscrições abertas para o curso de teatro na academia Up Fit! , na Rua Patagônia ,49. Penha. Mais  informações comigo no telefone (21) 2560-1598.

Joana D’arc
jornalistajoanadarc@gmail.com

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