João do Rio - Revista Internética

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A voz anônima das ruas

Ano 8 - Edição número 44
Agosto / Setembro de 2010


Diretores: Gilson Nazareth
              Márcio Salgado


Programação Visual: Massanobu Endo

Equipe: Benedita Azevedo
           Joana D'arc






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Colaboradores:
Diorindo Lopes
Domi Chirongo
Geraldo Lino
Luiz Antonio de Almeida
Rita Maria Felix da Silva
Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Toni Marins

 

 

Início seta Acontecências seta Marcus Faustini lança "Guia Afetivo da Periferia" na Travessa do CCBB

 

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Ano 7 - Número 41
Fevereiro / Março de 2010

ACONTECÊNCIAS

Marcus Vinicius Faustini, atual Secretário de Cultura de Nova Iguaçu, cineasta e diretor teatral, lançou seu primeiro livro:  "Guia Afetivo da Periferia," em que, segundo ele, há uma visão estética, além de ser um guia tradicional e subjetivo. O evento foi realizado na Livraria da Travessa do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro no último dia 9 de dezembro (Leia a entrevista com o autor realizada por Joana D'Arc e a resenha do livro por Egeu Laus).

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Guia Afetivo da Periferia de Marcus Faustini, um olhar de dentro para fora

Após o lançamento do Guia Afetivo da Perifeira, Marcus Vinícius Faustini nos concedeu esta entrevista por email. Aqui fala da importância de a periferia ser representada por um olhar interno, não que o externo seja pejorativo, mas é no mínimo parcial reduzindo-a a uma visão focada na marginalidade e na luta pela sobrevivência, por exemplo. Busca um novo olhar através deste gesto estético ( o livro) e um contato íntimo com o leitor, mostrando a expressão de um “moleque” andarilho pela cidade do Rio de Janeiro. Eis a íntegra:


João do Rio – Como surgiu a ideia do livro?

Marcus Faustini - O livro é um gesto estético.Queria demonstrar a subjetividade como um espaço de expressão da periferia.Geralmente, as representações de periferia são muito focadas na luta pela sobrevivência, marginalidade,etc...Acredito, que os territórios populares e os sujeitos possuem relações muito mais complexas do que essas representações feitas de fora para dentro.

 
João do Rio – Qual a importância do livro para a sua trajetória e para a periferia?

Marcus Faustini – Estou buscando a precisão estética em minha trajetória como artista. Desde o filme Carnaval, bexiga, funk e sombrinha que vinha tentando criar expressões estéticas que demonstrem a potência e a complexidade do modo de vida da periferia carioca.

João do Rio – Qual a periferia mostrada e como ela é retratada?

Marcus Faustini – É o Rio de Janeiro mostrado por dentro e através de alguém que circula a metrópole.

João do Rio – No que o seu guia afetivo se difere dos demais e na literatura a respeito da periferia de uma forma geral?

Marcus Faustini – Os territórios e sujeitos populares foram representados no país por pessoas de fora.Isso produziu algumas simplificações e enquadramentos de representação.Meu guia é um convite a um outro olhar.

João do Rio – A obra segue uma ordem mais pessoal/subjetiva do que cronológica, foi uma opção? Por que?

Marcus Faustini – Só é possível conhecer a experiência do outro através da expressão.Neste livro, meu objetivo foi demonstrar a expressão da subjetividade de um "moleque" que circula a cidade -a cidade dentro dele e ele dentro da cidade- queria um contato íntimo do leitor.Apresentar esse sujeito da periferia não como um ser de carências,mas com sua complexidade e potência.Por isso, a opção de fragmentar o livro em pequenos fluxos de pensamentos do personagem.

João do Rio – A escrita em forma de mini-crônicas subjetivas ao invés de descrição objetiva dos locais foi proposital? Por que?

Marcus Faustini – Gosto de criar a partir de dispositivos.Pequenas estratégias estéticas para o procedimento de criação.Os pensamentos e mini-cronicas foram a linguagem resultante desta estratégia neste livro.Ao mesmo tempo, consolida o gesto estético de reapresentar a periferia sobre o olhar subjetivo.

João do Rio – Quais os projetos futuros?

Marcus Faustini – Vou transformar o Guia afetivo da periferia em uma ação para contar as memórias dos territórios populares através de quem vive neles.

***

Um olhar subjetivo

Guia Afetivo da Periferia, de Marcus Faustini, não é exatamente um guia de locais, sugestões e referências para a visitação, como parece à primeira vista, quando se pensa sobre um guia. É um guia sim, mas de experiências pessoais do autor, enquanto personagem-sujeito oriundo da periferia carioca, especificamente do bairro de Santa Cruz,localizado na Zona Oeste da cidade Maravilhosa.

Quem espera encontrar referências objetivas se surpreenderá, pois como o título infere trata-se de referencias subjetivas e pessoais a respeito da periferia, como em Economia: “(...) Assim, passei a mapear o centro do Rio de Janeiro de acordo com as minhas possibilidades de sobrevivência. Invariavelmente comia em pé numa padaria da Rua da Carioca que oferecia um prato feito num prato de sobremesa. Era a minirrapidinha. Você podia colocar tudo o que coubesse naquele prato.(...)”, p.54.

Escrito em formas de mini-crônicas, o texto é ágil, bem escrito e não obedece a nenhuma cronologia temporal, mas a da importância daqueles fatos para o personagem-sujeito que se apresenta como alguém integrado à cidade e que a leva dentro de si, numa apropriação como forma de construção da sua identidade particular.

Um gesto estético com o objetivo comum a vários projetos e iniciativas existentes na periferia, conceito trabalhado de acordo com a definição particular adotada, no caso do livro a periferia em questão é a própria cidade do Rio de Janeiro: Mostrar que a periferia é maior do que se vê, com um olhar subjetivo de dentro para fora, para dissociar as relações de violência e marginalidade atribuídas à ela.

Se o gesto estético e o fato de o livro ser baseado em experiências pessoais do autor, como representante dessa periferia, são positivos ou não, cabe ao leitor avaliar, se entregando a leitura e permitindo ser afetado por ela.

Título: Guia Afetivo da Periferia.
Autor: Marcus Vinícius Faustini
Editora: Aeroplano, Rio de Janeiro.
Formato: 13x20cm, 188 páginas.
Ano: 2009
Valor: R$ 23,70
Disponível em: http://www.travessa.com.br/GUIA_AFETIVO_DA_PERIFERIA/artigo/01730a3f-a380-459f-8176-84c240ed2148

Joana D’arc
jornalistajoanadarc@gmail.com

Guia Afetivo da Periferia: Todos somos Centros

"Saber orientar-se numa cidade não significa muito. Requer ignorancia, nada mais.
No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer um aprendizado especial".
Walter Benjamim

As narrativas sobre as ruas do Rio, sempre despertaram meu interesse – pois me ajudam a re-construir permanentemente o meu Rio de Janeiro. Minha Autoviação que contem nomes como Radial Oeste, Piumbí e Piancó, Taylor e Moraes e Vale, Rezende e Gomes Freire. Ruas que comecei a trilhar (sim, andar é a melhor maneira de pensar) quando o autor do Guia Afetivo da Periferia tinha um ano de idade.

Mas, com algumas poucas e boas exceções, as narrativas que conheço são aquilo que se diz das viagens com guias turísticos: um jogo de cartas marcadas. Mesmo um Antonio Fraga, no seu Desabrigo, de 1945, elogiado por Oswald de Andrade, me parece uma apropriacão da linguagem das ruas para a sua literatura mas sem a fluencia da lingua de quem fala (quem viveu nas ruas percebe uma gíria usada fora do exato sentido ou contexto).

O Guia Afetivo da Periferia, de Marcus Vinicius Faustini, no entanto, mais que mostrar um vivido Rio “periférico” revela um rio interior e portanto “central”: os sentidos do próprio autor e por essa janela aquilo que, pelo jeito só os alemães conseguiram reduzir a uma palavra: weltanschaaung (a “visão de mundo” na falta de outra palavra).

Mas é interessante como, através de sua visão extremamente pessoal, descobrimos um Rio de Janeiro (e posso dizer um Brasil) moderno, que foi sendo construído da década de 1980 para cá. Um Rio sem políticas públicas mas com sons, cheiros, ruídos, visões, sobrevivências, desfoques, encontros, tramas, conexões, enfim construcões de toda sorte à margem dos poucos programas públicos mas contendo aquilo que Jane Jacobs considera essencial para a vida de qualquer cidade: a diversidade das pessoas com suas vontades.

Portanto, além de muito saborosa, é generosa a narrativa. Ela nos permite, ao olhar para o que fi(a)zemos, pensar sobre o que somos e quem sabe, nos ajudar a construir o que queremos. Algumas das bússolas deste século 21, vislumbradas neste Guia, já aparecem apontar alguns dos caminhos: A noção e a presença do Território como foco prioritário das ações urgentes para o desenvolvimento sustentável – parece ser um deles.

Faustini nos entrega, como presente, uma caixa natalina contendo um kit com um jogo de lentes que aproximam/distanciam (cinema, talvez?), além de cartas para embaralhar num moderno Jogo da Memória onde o objetivo é juntar pares por oposição e não semelhança, acompanhado de uma Fita com uma Trilha Sonora de Sons e Sentidos. Mas, repare: olhando bem você vai notar que no fundo da caixa está escrito Tupperware.

Egeu Laus

P.S. 1: Também gosto muito de conversar com as Caixas de Supermercado.
P.S. 2: Se puder, (para o seu Jogo da Memória) leia esse guia tendo ao lado Guimbaustrilho e outros mistérios suburbanos, de Nei Lopes, lançado em 2001.

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