Revista Internética
João do Rio

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"A voz anônima das ruas"

Ano 11 - Edição número 62
Fevereiro / Março de 2014

Diretores:
Gilson Nazareth
Márcio Salgado


Programação Visual:
Massanobu Endo


Equipe:
Benedita Azevedo
Joana D'arc

 

Colaboradores e
Articulistas
:


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Domi Chirongo
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Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Sérgio Fonta

 

 

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Ano 9 - Número 54
Abril / Maio de 2012

A TODO POETA

Carlos Lima

Image

Livro: “Phosphoros"
Autor: Carlos Lima
Publicações Comunicarte
Ano: 2007
68 páginas

 



Poética da condição humana

por Marcio Salgado *


Há muitas maneiras de expressar a nossa condição humana, mas, desde a antiguidade heróica até a época moderna, a poesia permanece como a sua fiel tradutora.  É esta condição atual, já distante de todo heroísmo, que o poeta Carlos Lima ironiza - para manter acesa a chama da esperança - no seu livro intitulado “Phosphoros”.

A nossa humanidade caída está no poema “A dama do crepúsculo”, uma bela alegoria das imperfeições humanas: “Era uma dama entre o cão e o lobo/fumando em sua varanda seus cigarros baratos...” Atente-se para a beleza contrastante dos vocábulos que compõem o primeiro verso: dama, cão e lobo. Aliás, verdadeiros poetas – e este é o caso de Carlos Lima – não empilham versos.

Esta mulher que fuma cigarros recheados de desgostos é a mãe de todos os desejos, de todas as infâmias reais. Posso tomá-la como representante de uma certa humanidade, perdida nas circunstâncias dos dias atuais. “Ela era uma antologia de presságios...”

Na composição dessas imagens verbais pungentes, revelam-se os traços estilísticos de um poeta que faz da sua arte um exercício de libertação interior. De fato, ler os seus poemas é libertar-se do assédio das futilidades que dominam o cotidiano. É libertar-se da linguagem enfatuada e do seu tédio organizado, mas não da sua beleza, da sua aspereza,  da sua simplicidade, porque a melhor poesia há sempre que trazê-las consigo.

Em “A ordem do tempo”, o passado retorna encarnado num instante único: “O passado é o que passou/mas são também os passos oblíquos que retornam/e que estarão presentes nos passos do futuro.” Esses versos humanizam o tempo que antes era sem limites, tornando-o mensurável, não pela cronologia da razão, mas pelos sentimentos.

Este diálogo com o tempo é mediado pela presença fugidia do ser que o poeta homenageia: “No carrossel do tempo/acorrentado procuro recompor-te/mas não cabe no poema/a tua fome de sonhos que persigo...” E que surge nos versos finais, como uma perda afetiva que ele reencontra naquele momento raro: “Daniel/Espírito do ar – Ariel.”

Carlos Lima fala sobre o amor de muitas formas distintas, porque compreende que múltiplas são as formas de amar. Não são raras as vezes em que um eu lírico freqüenta os seus versos, mesmo aqueles que tratam de temas sociais ou políticos. Aliás, no desenrolar dos seus poemas é comum a introdução de assuntos menores dentro de uma temática maior, bem como a inserção de diálogos que se ocultam entre os biombos da sua linguagem poética. “Falo do amor porque ele nos reinventa/na sua paixão na sua crueldade/o amor leva a sério as iluminações profanas.” Esses versos coloquiais de verdade e sentimento incontestáveis preparam o desfecho de fina ironia do poema: “Meias-verdades meias mentiras/todo mundo é profeta mas nem todo mundo é poeta.”

Os múltiplos temas abordados pelo poeta encontram sempre formas que os acolhem. Colocá-lo no seio de uma vertente poética pode não ser a melhor solução, contudo, vê-se uma luz drummondiana em algumas das suas criações. Inclusive no agnosticismo que se delineia no verso final do poema “A chaga dos tristes”, onde o tema da queda ressurge de forma desconcertante: “Eu sou da raça de Caim deus não gosta de mim!”

Em várias passagens deste livro, o seu autor acende a chama da utopia. E expressa as suas inquietações sobre os destinos deste nosso mundo conturbado: “Na rua universal da miséria humana/.../só nos redime a fome de futuro da esperança.”

É neste contexto que Nelson Rodrigues Filho centra a sua análise no prefácio intitulado “Poesia e utopia”, que escreveu para o livro: “A poesia de Carlos Lima incorpora as experiências, as frustrações e as utopias de sua (nossa) geração, acreditando que sonho e luta têm sempre um encontro marcado na linguagem da palavra insatisfeita.”

Luiz Carlos do Rego Lima nasceu no Rio de Janeiro em 1945. É professor de Introdução à Cultura Brasileira no Instituto de Letras da UERJ. Publicou os livros “Anatomia da melancolia” (Editora Civilização Brasileira, 1982), com o qual recebeu o prêmio de poesia “Revelação – 1982” da Associação Paulista de Críticos de Arte; “Terra” (Ed. Europa, 1988); “Poemas esquerdos”(Eduerj, 1992); “Rimbaud no Brasil” (Eduerj, 1993), entre outros.


* E-mail: marciojsalgado@gmail.com



A Dama do Crepúsculo

a dona Amélia
in memoriam


Estávamos ao norte do crepúsculo
crespo ósculo de ouro o sol
se punha no olho do nosso sonho
e atravessava o chão encharcado pela chuva
Era uma dama entre o cão e o lobo
fumando em sua varanda seus cigarros baratos
um atrás do outro um de cada vez
na soma de todos os dias torturados
Cassandra extática envolta na fumaça
a cada tragada lutando com o luto do futuro
Ela era uma antologia de presságios
que exibia sua angustiante colheita de penumbras
a um furioso vagabundo ladrão de estrelas
que só agora pode subir até aqui e ofertar
este fardo de obscuridades e inquietudes.




A Ordem do Tempo

ao Dani

O passado é o que passou
mas são também os passos oblíquos que retornam
e que estarão presentes nos passos do futuro
O que passou não passou para esses desesperados
animais da angústia que nós somos
e persiste nas garras da tarde
na luz de toda fúria da ternura imaginada
Mas só fora do tempo
deverá haver perdão pra quem assim tanto amou?

No carrossel do tempo
acorrentado procuro recompor-te
mas não cabe no poema
a tua fome de sonhos que persigo
nem os teus olhos ávidos avaros de infinitudes
nem a voraz inteligência cristal das noites essenciais:
"Carlos, por que você não diz isso
de um jeito mais simples?"
Pura volúpia só te saciavam as coisas raras
Como deter-te com nosso amor imperfeito
ou com esse obscuro soluço que conspira
na máscara deste tempo humano destroçado?

Há um humor indecoroso e inefável
no teu último teorema de alegria:
"Passado, Presente, Futuro
o Sol coloca-nos na ordem do tempo
sem ele seríamos apenas um infinito silêncio sem acordes"
Daniel
Espírito do ar - Ariel
Lapislazúli - Luz do céu.



Manual de Sobrevivência na Selva Pós-Moderna

a Carmen da Matta
e a turma do "Botafogo"

A poesia é impossível, fique quieto em sua casa
Dizem que há fome nas esquinas
não saia, ponha grades nas janelas
se saíres leva o teu revólver
vá a um bar da moda peça uma boa dose de cinismo ou de sucesso
mas com gelo, o tédio pode-se pagar com cartão de crédito
tudo isto sozinho pois a amizade não vale a pena
está por fora e além do mais não é lucrativo
o amor nem pensar é um sentimento pré-histórico
e nestes tempos tornado supérfluo e improdutivo
Dizem que há mortes e a guerra ainda não acabou
passeie em teu jardim prisioneiro
de anêmonas mortas e cultive os espinhos não as rosas
Dizem que estão matando a infância na noite metafísica
não se impressione é tudo uma questão de estatística
O mundo dos ricos continua em paz
enquanto eles dormem as suas riquezas copulam e se multiplicam
eles riem e cochicham uns para os outros:
"Nós somos os últimos homens nosso bunkergeist
da lepra do tempo nos mantém desinfetados
e no luxo não morreremos sufocados"

Isto não é um homem
isto não é nem mesmo um homem de papel
isto é bem menos que a sombra de um homem
mas sem sentimentos sem amigos sem amor sem paixão
como os ratos dos esgotos nos sobreviverão!



A Chaga dos Tristes

a Edson Dantas

Escuta a vida nos ossos do tempo
não há verso capaz de resgatá-la
podes quando muito sorrir
não que isto te redima
ou te impeça de sufocar
mas a ironia é a chaga dos tristes

Nos quintais da vida caminhamos
o oxido de nossas sombras
na bigorna do dia se espargia
ah a melancolia da dor dos tristes dias findos!

Aqui é só a vida que fracassa
cada palavra é um sonho morto
como a ílor na boca mendiga da esperança
como os dentes da treva beijando os lábios da mentira

Aqui é só um homem que fracassa
na mortalha da memória o amor clama
Nem deus nem mestre
a crase da vida o belo e o verme engendra
e o esqueleto do tempo a todos cobrirá
Eu sou da raça de Caim deus não gosta de mim!

 

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