João do Rio - Revista Internética

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A voz anônima das ruas

Ano 8 - Edição número 44
Agosto / Setembro de 2010


Diretores: Gilson Nazareth
              Márcio Salgado


Programação Visual: Massanobu Endo

Equipe: Benedita Azevedo
           Joana D'arc






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Colaboradores:
Diorindo Lopes
Domi Chirongo
Geraldo Lino
Luiz Antonio de Almeida
Rita Maria Felix da Silva
Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Toni Marins

 

 

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Ano 7 - Número 41
Fevereiro / Março de 2010

Gaia

Nada era tão conveniente como a manhã seguinte, nascia em festa um novo dia, gratificante era estar próximo de tudo aquilo, sim uma manhã enfeitada em sol, festa de luz sobre as copas das frondosas árvores, sim confesso que gosto de vê-las assim, todas bem iluminadas. O contraste de variados tons de multicor, eram tantas mangas amareladas, sobre um fundo verde das folhagens, era um verdadeiro convite a experimentar. Frutas docemente gostosas, mel na boca. As pitangueiras se mostravam vistosas com seus frutos em variados tons amadurecidos ao vento.

Sinfônica manhã, num alvoroço de pássaros, um bando barulhento em revoada cheia de simetria, sanhaçus, bem-te-vis, maria-pretas, canários da terra, azulões, tizis e pardais todos cantando uma celebração divina, cantoria de intenso vigor. Ali bem perto, insinuante, camuflada entre as folhagens, logo ali, ela o início de tudo na versão bíblica, serpente do paraíso toda ela revestida de um manto verde, causando uma confusão aos olhos. Desfeita a descontração, surge uma trágica atmosfera, ela a cobra verde serpenteando entre os galhos, não deixando a menor sombra de dúvida, lá estava para saciar sua fome, numa escolha veloz seguida de um istantâneo silêncio... Olho surpreso o deslizar do pássaro, que agora quieto, descia em movimentos de contrações até o fundo do estômago em forma de chicote, sem piscar os olhos, ainda vejo a sua língua bifurcada movendo-se para frente e para trás continuadamente. Algumas penas ainda flutuavam no ar, quando resolvi olhar detalhadamente para o animal ardiloso, foi então que me. deparei com aqueles olhinhos, diminutos vidrilhos, esferas vitrificadas, instrumentos encantadores de poderes hipinóticos que lhe garantiam o sustento, mantendo-a soberana ao longo dos tempos.

Como se ouvisse o ritmo acelerado das minhas palpitações cardíacas, ela deslizou sobre os galhos finos desaparecendo em meio da vasta folhagem, enquanto tento apagar da memória a imagem dos diminutos olhos de vidro, vidraça que encerra o canto.

Corro até o charco, que nessa época encontramos lírios bem crescidos, deito-me sobre suas folhagens que mais parecem um grande colchão de junco, como isso é bom, relaxo e ponho-me a fitar os lírio ao redor, floridos de copos de leite, alimento os olhos de tanto olhá-los.

Como quem se deixa flutuar, recordo nesse exato instante uma passagem de alguns anos atrás, por ocasião da aparição do Cometa Halley, todos na época queriam vê-lo, e como isto só era possível de alguma região distante das luzes da cidade, partimos para Araruama, chegando lá eu e Ana das Minas, procuramos um lugar próximo a uma lagoa. Esperamos na relva o cair da noite. Os astrônomos diziam, que era possível vê-lo a olho nú, um manto de estrelas cobria nossos olhos, procuramos seguir a localização dada pelos jornais do famoso cometa, lá estava ele entre as estrelas espreitando-nos do céu, passeando em nossos glóbulos oculares, bem acima de nossas cabeças, não trazia o brilho de mil sóis, mas dava para observar sua cabeleira esfumaçada, de brilho opaco devido à sua angulação referente ao planeta, sua cauda rente nos parecia uma fraca luz envolvente, logo inspirou em nós uma noite astral, procuramos dali para frente muito mais que um cometa esmaecido pela distância, sim passou distante, bem distante como luzir de estrelas, diferente de quando passou no ano de 1910, mas deixou seu calor incandescendo nossa carne, meu pai viu, contou-me estórias do fim do mundo, pois é, dessa vez passou tão sutil que seu brilho ficou ofuscado com os demais brilhos estrelares. Seguimos após às horas de profunda procura, deixando atrás de nós um sorriso de lua nova no céu.

Brasil Barreto





































































 
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