João do Rio - Revista Internética

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A voz anônima das ruas

Ano 8 - Edição número 44
Agosto / Setembro de 2010


Diretores: Gilson Nazareth
              Márcio Salgado


Programação Visual: Massanobu Endo

Equipe: Benedita Azevedo
           Joana D'arc






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Colaboradores:
Diorindo Lopes
Domi Chirongo
Geraldo Lino
Luiz Antonio de Almeida
Rita Maria Felix da Silva
Selma Wandersman
Sérgio Bernardo
Toni Marins

 

 

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Ano 7 - Número 41
Fevereiro / Março de 2010

CHANEL N° 5
Folhetim novelesco

(À memória de Janet Clair)

Os folhetins e as primeiras novelas da televisão criaram um estilo de histórias de amores impossíveis e trágicos, ao qual não resistem inúmeras pessoas.

O folhetim novelesco vale pelas lágrimas que você verter e pela opressão que sentir no peito, nada a ver com a verossimilhança.

CAPÍTULO I

1965, Ipanema, residência dos Muniz Barreto: esquina da Prudente de Moraes com a Montenegro

Maria José Muniz Barreto, a Jô, completa 12 anos, com uma festa para os amiguinhos e parentela.

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Ana Maria e José Paulo, os pais, recebem a todos, entre outros um primo, o Capitão do Exército Jaime Gurgel Paiva: 37 anos, bem apessoado, solteiro, um bom partido.

O mulherio presente tenta fisgar aquele “pão”, mas o capitão é do tipo que só vai se casar quando encontrar a sua alma gêmea.

Jô é apresentada a Jaime e troca duas palavras com ele, logo tem a atenção desviada pelas amiguinhas, cumprimenta o primo e vai embora.

Jaime fica impressionado com a beleza da priminha aniversariante. Ele se aproxima de Ana Maria e diz-lhe: Daqui a três anos se meu coração não pifar e a Maria José ficar mais bonita, peço lhe a mão dela.

1968, salão de festas do Fluminense Futebol Clube, baile de debutante de Maria José Muniz Barreto,a Jô.

O Capitão Gurgel Paiva monopoliza atenções, Maria José não gosta disso.

Depois que José Paulo dança com a filha, Jaime a tira para dançar. O militar não tira os olhos da debutante e se ressente quando outros dançam com a mocinha. Cria-se um mal-estar na festa. A aniversariante tenta fugir de Jaime.

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José Paulo e Ana Maria temem melindrar primo; e o ti-ti-ti se espalha pelo salão de festas.

Quem parece não se incomodar é Gurgel Paiva que abandona a pista de dança e conversa, reservadamente, com o casal Muniz Barreto: suas fisionomias exibem perplexidade enquanto o ouvem.

O pai tira a filha para dançar e comunica que Jaime está com os dias contados: coração e que antes de morrer quer deixar um herdeiro e que pediu a mão de Jô.

A jovem arregala os olhos e sente os pés presos no chão.

– É a vida de um homem dependendo de um sim ou um não, de uma menina. Ela se sabe tão mais jovem do que ele... Os pensamentos se repetiam no cérebro de Jô que procurava pensar que não entendera o que o pai lhe havia dito, nada fazia sentido. Principalmente agora, que ela e Rodrigo começavam a namorar. A sua vontade era dizer não, mas um homem iria morrer se ela o dissesse.

Na hora do pedido disse sim.

Nesta ocasião, recebeu um presente da mãe que iria acompanhá-la por toda a sua vida: um frasco de Chanel n° 5.

Outubro, Igreja da Candelária. Seis meses se passara.

Numa tarde de primavera, Jô entra com o pai na Candelária lotada.

Ela – virginal, aos 15 anos – e ele – aparentando vigor físico, transbordando virilidade, aos 40 – é um casal invejável.

O padre faz a preleção e a noivinha, com voz sumida, diz sim. Os noivos trocam as alianças e ele a beija com um beijo curto, porém apaixonado, a moça cora.

A recepção é no Copacabana Palace.

Fim de festa, os noivos se encontram a sós.

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Jô pede para se trocar na suíte, enquanto ele se trocaria no quarto. Maria José retira toda a maquiagem, o vestido, toma uma chuveirada, põe a camisola, o “pegnoir”, seca os cabelos apenas nas pontas, olha se no espelho procurando coragem e, pela primeira vez, passa o Chanel n° 5.

Jaime, de pijama de cetim branco, a vê saindo do banheiro, Aproxima se dela,beija lhe as mãos, que estão geladas, abraça-a, tenta tranqüilizá-la e beijando-a longa e apaixonadamente.

Jô desmaia em seus braços e Jaime a carrega até a cama.

Quando volta a si, Jô murmura: – Que seja feita a sua vontade.

– Calma, sem pressa, podemos deixar isso para amanhã. Causo-lhe tanta aversão?

– Meu senhor, os que vão para o sacrifício não têm vontade. Não se preocupe, mesmo estando com os dias contados,terá seu herdeiro.

Jaime ficou vermelho, depois pálido, começou a suar frio e a ter taquicardia. Maria José, preocupada, segurou sua mão e,novamente, murmurou:-Desculpe me, falei sem pensar.

Segurando na mão da esposa, Jaime retrucou: – Eu me sentiria melhor se me chamasse de Jaime.

– Mesmo não o amando da mesma maneira e intensidade com que me ama, o casamento será mantido, terá os seus filhos, só a morte vai nos separar. Juro pelos meus pais, que são as pessoas que mais amo.

– Você nunca vai quebrar o juramento?

– Só Deus e o anjo da morte podem fazer isso. Como está se sentindo agora?

– Vivo. Só você tem o dom de me tirar ou trazer a vida de volta. Sabe o que gostaria de fazer agora? Queria que dormisse aninhada comigo, vestida do jeito que está, para ter certeza da sua presença, sentir seu perfume.

Jô sorri, deita a cabeça no braço de Jaime, vira o corpo para o do marido e se desculpa.

Jaime afaga a cabeça da jovem esposa e responde: – Não tem problema, temos todo o tempo do mundo. Talvez lá em Ribeirão, a gente tenha calma e paz para ter e criar os filhos e, quem sabe um dia, me amar, agora dorme.

Amanhece. José Paulo e Ana Maria vão se despedir da filha e genro no Galeão. O casal vai morar em Ribeirão Preto, devido a saúde de Jaime.

Um ano depois. Jô mostra o exame de gravidez: positivo. Jaime beija e abraça a mulher e mostra um bilhete de avião. Irão comemorar o primeiro aniversário de casamento com os pais dela.

José Paulo e Ana Maria ficarão felizes com a notícia de que vão ser avós.

FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO.
O PRÓXIMO EPISÓDIO SERÁ CHEIO DE SURPRESAS E EMOÇÕES.
CONVIDAMOS NOSSOS LEITORES A MANDAR SUGESTÕES QUANDO À TRAMA E O DESTINO DOS PERSONAGENS, ESTE È UM FOLHETIM AUTÊNTICO.

Selma Wandersman
(Ilustração de Marcela Rangel)

 
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